Não quero saber em quem você vai votar

O manual da boa convivência é categórico: futebol, política e religião não se discutem. E desde sempre, adotamos essa “dica” aparentemente inofensiva como uma falsa regra de conduta, que é, na verdade, uma conveniente saída de um debate sem argumentos. Ou seja, uma desculpa esfarrapada com respaldo diplomático. Afinal, o que é que ganha uma nação onde não se discute política?

Particulamente, eu nunca gostei de política. Mas o fato é que é impossível não se interessar nem um pouquinho pelo assunto. Ele está aí, no nosso dia a dia, no nosso trabalho (ou falta de), nos armários e geladeiras de nossas casas. E todo mundo adora discutir sobre o preço do tomate ou de como é mais vantajoso comprar eletrônicos no exterior, por causa dos impostos. Adoramos reclamar do trânsito, das estradas, da alta do combustível. E temos um imenso prazer ao sentenciar o apocalipse da água. Tudo isso é política e são coisas que gostamos de discutir. Não gostar de política é como não gostar de história, é não se conhecer, não ter expectativas em relação ao futuro, é estar fechado ao conhecimento. Nestas eleições, eu descobri o que realmente me incomoda em debates políticos. E é justamente, paradoxalmente, a falta de argumentos sobre política – e a consequente intolerância que vem embutida nesses discursos. É por isso, e não pela política em si, que muitas amizades estão sendo desfeitas no Facebook, coisa que até a imprensa tem notado e comentado.

Há uma teoria da Comunicação que defende a ideia de que as pessoas só consomem (em matéria jornalística) aquilo que lhes é semelhante e concordante. Ou seja, de que as pessoas não leem textos/autores cuja opinião vai de encontro à sua. Ou ainda: se eu voto no candidato A, não quero ler nada que exalte o candidato B ou que infame o candidato A. Não é uma regra, mas também não é uma exceção. Esse comportamento existe sim. Se não existisse, você não teria bloqueado aquele seu amigo que só fala mal do Corinthians. Ou do Palmeiras. Ou aquele que só fala de Jesus. Ou que só critica os religiosos. Ou aquele que só fala bem da Dilma. Ou do Aécio. Mas pode continuar me lendo, porque não falarei de um ou de outro. Tampouco falarei de política. Não, eu quero falar de democracia, direito de opinião e tolerância.

Os então “debates políticos” do Facebook são tão profundos quanto a rede social permite ser. E apesar do meio ser propício ao diálogo, tem-se notado cada vez menos debates e mais monólogos autoritários. Menos política e mais julgamentos preconceituosos. Eu cheguei ao cúmulo de ler que a) eleitores do Aécio são elitistas, contra os pobres, contra a igualdade social e nazistas; b) eleitores da Dilma são comunistas, pobres e ignorantes; c) como é possível trabalhadores, assalariados, votarem no Aécio? d) quem vota na Dilma é a favor da ditadura de esquerda. E assim por diante. E isso tudo vindo de pessoas adultas, maduras, formadas e informadas. Aparentemente.

O que está havendo é um julgamento generalizado. Você, por exemplo. Você não me conhece. Não sabe a história da minha vida, desconhece minha personalidade, minhas crenças, meus valores. Mas se eu te disser que voto na Dilma, serei taxada com inúmeras impressões e expectativas. Se eu te disser que voto no Aécio, a mesma coisa. Mas peraí! Não sei você, mas eu vivo em uma democracia. E democracia significa fazer a vontade da maioria. E não, talvez a sua vontade não seja a da maioria. Já parou pra pensar nisso?

Quero finalizar com uma observação fantástica do fotógrafo e professor Osvaldo Santos Lima. Um dos poucos discursos tolerantes e de bom senso que vi durante todo o período de campanhas eleitorais (e que demonstra a opinião de que compartilho melhor do que tudo o que escrevi aqui).

Acredito na democracia ao ponto de ter consciência que a minha vontade política, representada pelo meu voto, é apenas uma pequena fração. Meus candidatos por vezes ganham, por vezes perdem. Porém, por ser um democrata, não ofendo as outras pessoas por suas escolhas políticas. Não as considero alienadas por terem convicções diferentes que as minhas. Acho de extrema pobreza de espírito dizer que o outro, por ter votado em A ou B, é alienado ou desinformado. Pergunto: não seria você o desinformado? Não seria você o alienado? O errado? Por que creditar ao outro aquilo que pode muito bem ser a sua carapuça? Noto pessoas que conduzem aqui no face uma máscara de bom mocismo e que são os primeiros a atacarem as escolhas que não são as suas. Taxam de elite, de reaças, de esquerda alegre, de direita rançosa, disto e daquilo qualquer um que se aventure a pensar diferente. Incomodam-se com a democracia de fato pois ela permite que o “reaça” convicto vote com convicção. Que o “esquerdista” convicto vote com convicção. E até mesmo que o “ignorante político” possa cometer seu erro com convicção. Melhor assim, convictos e plurais. Pois creio na democracia e ela me ensina que minha vontade, por mais que seja minha, pode não ser a melhor, pode ser até mesmo a pior mas certamente é a fração que dôo à democracia.

Vou além: se você julga e condena as pessoas por votarem em um candidato diferente do seu, por terem uma convicção diferente da sua, você tem um problema, meu amigo. E esse tipo de problema já causou genocídios na história da humanidade. Just saying.

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