Meus medos

Tenho medo. Temo que as palavras a seguir não façam nenhum sentido para você. Porque faz tanto tempo! Faz tanto tempo que eu não faço isso, escrever por escrever. Escrever por hobby. Será que é como andar de bicicleta? Tenho medo de escrever. Medo de você, do seu julgamento. Você, que neste momento, é apenas e somente um leitor. Você é o meu leitor e nada mais. Você é só meu agora. Mas eu não tenho controle sobre os seus pensamentos. Por isso temo o seu julgamento. É possível que, nesse sentido, eu seja mais sua do que o contrário. Você julga as minhas palavras como bem entende, dá a elas um novo sentido, imagina o que quiser. E você me julga por meio delas.

Que ironia, medo de escrever! Essa é a minha profissão! É a única coisa que julgo saber fazer e é a minha profissão. Ela, que deveria ser minha paixão, a razão pela qual acordar às seis horas da manhã todos os dias, andar um quilômetro até o terminal de ônibus e demorar mais quarenta minutos para chegar ao trabalho de escrever. Mas não, a minha profissão me aprisiona. Ela aprisiona as tantas e tantas palavras que se passam por minha cabeça em títulos de uma linha e roteiros de trinta segundos. Por quê? Ah sim, um bom título pode valer muito mais do que mil palavras, mas então quanto vale um texto de mil palavras? Sinto que o condicionamento da rotina da profissão está assassinando o que um dia eu considerei um “dom” para a redação. E se o dom for, na verdade, pura prática? Como um músculo que precisa de treino para alcançar a hipertrofia. O que seria a hipertrofia das palavras?

Minha profissão está matando a minha criatividade, mas eu tenho medo. Tenho medo de deixar o meu emprego. Apavora-me a ideia de começar tudo de novo. De conquistar novos chefes e novos amigos. Tenho medo de não conseguir. A zona de conforto é tão… entorpecente! Mas tenho também muito medo de ficar onde estou, de ficar assim para sempre. Esse medo está me tirando o sono e os últimos pensamentos otimistas que sobraram em relação ao meu trabalho. Tenho 27 anos e tenho medo. Mais medos que uma criança de sete.

Por exemplo, tenho medo de dirigir. Eu sei dirigir, mas não sei de verdade. Tenho medo do trânsito, dos carros, das motos, dos ônibus, dos pedestres. Tenho medo, muito medo, de acidentes. E sabe o que me deixa tremendo, com as pernas bambas de pavor? Rampas. Rampas e balizas. Quero entrar num foguete sem escalas para Marte quando preciso fazer uma rampa. Mas eu também tenho medo de voar, então não conseguiria nem fugir para o Espaço.

Pensando bem, eu tenho medo, também, da reação das pessoas no trânsito. Olha aí, de novo, o julgamento, o medo de ser julgada, criticada. Como é aterrorizante admitir isso! Nunca pensei que teria dentro de mim essas raízes tão inconfundíveis do orgulho. Isso me envergonha e eu tenho medo da vergonha, de passar vergonha. Tenho medo de falar em público. Medo de câmeras e de ouvir minha própria voz naquele áudio do Whatsapp (meu Deus, como as pessoas me suportam?).

Às vezes, tenho medo do futuro. De não sabê-lo, de não conhecê-lo e não controlá-lo. A incerteza é apavorante. Não gosto de imaginar a minha vida daqui, digamos, cinquenta anos. Porque automaticamente penso em pessoas que não estarão mais comigo. Um pensamento egoísta, mas assustador, que chega a me paralisar, que enche meus olhos de lágrimas. Seria esse um disfarçado medo da morte? Ou da solidão?

Sempre gostei de pensar que não tenho medo da morte. E acredito que não tenha mesmo. Mas guardo um pequeno medo de morrer. Da dor de minha alma se desligando de meu corpo, da possível violência e não naturalidade do processo. Posso até não ter medo da morte, mas morro de medo (ops!) de tudo o que vem antes dela. Ou seja, da vida. Mas apesar dos medos e da vida, eu vivo. E vivo feliz. Mais feliz do que infeliz, pelo menos. Afinal, é aquela velha história né… o que seria da luz sem a sombra?

Tenho medo de engordar. É, eu tenho esse medo. Sempre me considerei uma pessoa fora dos padrões de beleza estéticos, ou seja, gorda. Não gorda obesa, mas gordinha. Pelo menos, sempre me considerei a mais gorda entre as minhas amigas. Aí um dia, há quase dois anos, não sei o que aconteceu que eu emagreci (na verdade, eu sei o que aconteceu: academia, dieta e suplementos). Eliminei mais de 10 quilos que eu nem sabia que tinha. Coisa que até então, pra mim, era impossível. Mas consegui, superei, venci, uhul. E agora, tenho pavor de que esses quilinhos voltem à minha balança. Tenho medo e levo uma vida alimentar regrada de compensações, neuroses e cálculos calóricos. Almoço líquidos quase todos os dias da semana para poder jacar (do popular “enfiar o pé na jaca”) aos finais de semana. Culpo-me constantemente por aquela colher a mais de maionese, pela batata frita repetida e pela sobremesa desnecessária que me deixou estufada. Uso aplicativos para fazer um controle diário de calorias, tomo suco verde e cada semana experimento uma dieta nova de detox. Às vezes, sinto-me uma vítima, mas o pavor de engordar ultrapassa todos os limites.

Tenho outros medos também. De baratas, ratos, cobras, aranhas, lagartixas, ETs. Pois é, eu tenho medo de extraterrestres. Desde criança. Imagino-os verdes e maus, sugando todas as coisas boas da alma, mais ou menos como um dementador. Eventualmente, tenho medo do escuro e do silêncio, outro medo que paralisa a mais imperceptível célula motora do meu organismo. Como toda boa libriana, tenho medo de tomar decisões, ou melhor, de tomar a decisão errada. Temo a injustiça. É um tormento, um castigo, um precedente de loucura, perceber ou sequer imaginar que cometi uma injustiça. E ah, como me assusta a loucura! Não sei explicar. Tenho medo de buscar uma explicação para esse medo. Condói-me o estado de loucura, mas apavora-me igualmente. Tenho medo de usar verbos como “condoer” (ainda mais enclíticos), mas estou me acostumando com a ideia do seu julgamento sobre mim. Quando o fizer, no entanto, tenha alguma empatia. Eu acabei de me abrir com você, e esse é um outro medo enraizado no meu espírito. Eu tenho medo de me abrir, de falar sobre os meus sentimentos. Medo não, pavor. Portanto, seja um bom leitor e use estas confissões para analisar também a sua alma, o seu íntimo. Volte-se para si mesmo e pergunte “quais são os meus medos?”. Comece pelos pequenos, pela barata, pelo escuro. E vá fundo. Não tenha medo de responder. Pode ser libertador. Ainda estou esperando a libertação, mas dizem que ela acontece, mais cedo ou mais tarde.

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