Oscar 2013 – As aventuras de Pi (Life of Pi)

life-of-pi-posterIndicações (#11):

Melhor Filme
Melhor Diretor 
(Ang Lee)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Fotografia
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Canção Original
Melhores Efeitos Visuais
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som
Melhor Design de Produção
Melhor Maquiagem e Cabelo

Piscine Patel (Suraj Sharma) é um jovem indiano que vive uma vida comum (bom, até onde se pode ser comum tendo um nome desses e sendo dono de um zoo) até que acaba sendo o único sobrevivente de um naufrágio. Ele e Richard Parker, o tigre. E esse é o segundo filme com mais indicações ao Oscar desse ano: um garoto indiano e um tigre dividindo o mesmo bote por quase 3 horas.

Essa era a minha maior impressão sobre Pi antes que eu fosse assistir a ele. ~Um garoto e um tigre fake em um barco, ah nem…~. #ShameOnMe.  É, meus caros, no que diz respeito a Cinema, poucas vezes eu tive expectativas tão contrárias àquilo que senti vendo um filme.

Pi é simplesmente maravilhoso. Mas não devemos nos manter  só na minha opinião pessoal, certo? Falemos então por que As Aventuras de Pi é um filme tão notável. E por que ele merece cada uma de suas onze indicações.

O cenário é distante da nossa vida ordinária. Um zoológico em Pondicherry é o primeiro ambiente do longa. Ali vive a família Patel: pai, mãe e dois filhos. Pi, o mais novo, mostra-se sensível desde criança, quando ele quer basicamente adotar o tigre do zoo para bichinho de estimação – o que gera uma lição dada por seu pai e jamais esquecida por ele.

Quando eles decidem se mudar para o Canadá, levam vários animais do zoológico junto para que fossem vendidos. O navio cargueiro acaba naufragando e, no caos, somente Pi consegue se salvar em um bote. Bom, Pi e Richard Parker, como dissemos anteriormente.

A partir de então, assistimos ao conflito do garoto que, assustado, tenta sobreviver à deriva; dividido entre a fé e a razão, fiel a ambos. A fé, inclusive, é um ponto importante no longa. Um fio condutor que se personifica através da mãe de Pi e que segue vivo nele como uma chama durante todo o filme. Durante toda sua vida, contada então por Pi (adulto) a um jornalista britânico.

Os pontos de chamada à razão são geralmente demonstrados por seu pai, o que faz com que Pi tenha sempre um pe(zinho) no chão, lembrando-se de que a natureza animal (em humanos e bichos) e os instintos não podem jamais ser ignorados.

Pi é essencialmente isso: uma questão de fé. A perda dela e sua restauração. Mas nada disso de um jeito chato ou piegas, mas de uma maneira incrível, sonhadora e bela. E grande parte do mérito disso é do diretor Ang Lee (o taiwanês que dirigiu também “O Tigre e o Dragão” e “Brokeback Mountain“).

Com sensibilidade e habilidade, a direção de Ang Lee nos conduz através de emoções diferentes, como o humor, a empatia, a dor e a compaixão. Isso sem falar nas paisagens fantásticas e maravilhosas, que por muitas vezes se tornam parte fundamental da cena, atuando mesmo como mais um personagem da estória.

Até por isso, acredito que seja o favorito para ganhar o Oscar de Fotografia. E seria (muito) merecido. Pi é visualmente lindo. Sabe como a gente sempre fica fascinado vendo aqueles filmes trailers 3D do IMAX sobre o ~fundo do mar~? Então, Pi tem isso, mas com a ligeira vantagem de ser extremamente coerente com o enredo. Indo nesse embalo, chuto também que fique com o prêmio de Design de Produção (que, pelo que eu entendi, é o bom e velho Direção de Arte).

É interessante ainda destacar que Pi, embora seja o segundo filme com mais indicações, grande parte delas são técnicas. Também por isso, não acho que vá levar melhor filme (embora seja o que ficará mais guardado pra mim).

Os efeitos visuais , na minha opinião, são aposta certa depois de Richard Parker. O tigre, inteiramente digital (porque né!), é espetacular. Irretocável, eu diria. Exagero meu? Não se você considerar que Ang Lee e sua equipe tiveram que provar que o tigre não era de verdade.

A trilha sonora (a canção original incluída aqui) é um enigma pra mim. No início ela me incomodou um pouco pela estranheza. Parecia um início de filme da sessão da tarde, não me senti confortável. Mas logo você já está acostumado e ela acompanha o filme todo. Não boto muita fé que vá ganhar.

A edição me lembrou muito Peixe Grande e por vezes eu achava que os cortes e transições caminhavam na linha tênue entre o bom e o bizarro, mas, de forma hábil, a equipe conseguiu deixar tudo aquilo fantástico. Acho que não leva.

Pi não foi indicado a nenhum prêmio por atuação, mas vale menção a atuação de Suraj Sharma, o próprio π! O filme se sustenta em grande parte nele e Suraj não decepciona. As emoções que falamos há pouco, vêm através dele e chegam a nós com uma simplicidade enorme. O ator consegue transmitir uma pureza que caracteriza unicamente o personagem e é fundamental para o sucesso do filme. E a curiosidade do dia é que Suraj Sharma não era ator e nunca havia feito nada. Foi aos testes para acompanhar seu irmão e acabou arriscando.Pode-se dizer que deu certo.

max-felinos-vida-pi-plagioNão podemos deixar de fora, no entanto, a polêmica envolvendo Pi. O roteiro adaptado do livro de Yann Martel (2001). Não é exatamente quanto à adaptação do roteiro que existe uma polêmica, mas sim quanto à ~adaptação~ do livro.

The Life of Pi teria sido livremente inspirado em um outro livro, Max and the Cats, mais conhecido como Max e os Felinos, um livro brasileiro escrito por Moacyr Scliar em 1990. A acusação de plágio já é antiga, mas reviveu agora. O livro brasileiro não teve tanta pompa nem ganhou prêmios como o do canadense, mas claramente foi o ponto de partida para o estrangeiro.

Deixemos o próprio autor explicar:

O Max Schmidt de meu livro é um jovem alemão que está fugindo do nazismo e que embarca para o Brasil. O navio em que viaja, um velho cargueiro, transporta também animais de um zoológico. Há um naufrágio, criminoso, mas Max salva-se em um escaler. E de repente sobe a bordo um sobrevivente inesperado e ameaçador: um jaguar. Começa então a segunda parte da novela, que tem como título O jaguar no escaler.

Esta, a idéia que motivou Martel. O seu personagem, Piscine Molitor Patel, Pi, é um menino hindu cujo pai é dono de um zoológico. A família emigra para o Canadá, levando os animais a bordo. Há, na segunda parte do livro, um naufrágio (que depois será considerado criminoso). Pi salva-se. No mesmo barco estão um tigre de Bengala, um orangotango e uma zebra. O tigre liquida os três e Pi fica à deriva com o felino por mais de duzentos dias.

Ou seja: a premissa é a mesma. Um garoto, um naufrágio, um bote e um felino vida loka.

Deixando de lado todo esse papo de plágio (afinal, se o livro canadense não é lá original em tudo, ele tem seus méritos e acabou escrevendo uma bela história), o roteiro adaptado chega de fininho, mas tem concorrentes bem fortes. Deve ficar com Argo.

POSSÍVEIS & PROVÁVEIS SPOILERS ABAIXO

Em resumo, Pi mereceu as indicações recebidas e a meu ver tem chance real de sair com algumas-várias estatuetas. Mas o maior feito do filme é, de fato, a reflexão, a delicadeza, a sutileza que alcança como cinema. A busca por Deus retratada de maneira simples e acessível a todos.

O comentário final que abre espaço a tantas interpretações. A animalização do ser humano, como por vezes nos comportamos como os mais primitivos animais. A fé constante, encontrada em detalhes. Mas principalmente, a escolha. A escolha em acreditar ou não.

Pi é, no fim das contas, um Calvin e Haroldo sênior.

***

Merece ser visto, merece (e deve!) ser visto em 3D.

É, provavelmente, o meu favorito entre os concorrentes desse ano. É um filme que me fez pensar, que me fez sentir e me fez vibrar. Um filme que me fez lembrar no que eu acredito. E você? No que você escolhe acreditar?

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