O boêmio que falava Anauê

Noventa anos parece muita coisa, mas, apesar de alguns problemas de saúde, não se pode dizer que ele estava cansado. “Vô, 90 anos passam rápido?”, perguntei uma vez. “Muito rápido”, ele disse.

Noventa anos e uma vida de “várias facetas agradáveis e inegáveis”, podendo-se acrescentar aí um pouco de improváveis. É assim que este rio-pretense de sangue espanhol falava sobre o pouco que lembrava de sua vida, assumindo as loucuras da juventude sem renegar os episódios que as torna tão curiosas.

Filho mais velho do espanhol Wilfrido Rey e da brasileira Úrsula Ferreira, cresceu sob a influência da forte formação humanista do pai – um teimoso ex-seminarista nascido em Burgos e que passara parte da vida na Itália (no Vaticano, inclusive), nos Estados Unidos e, finalmente, no Brasil. Por alguma razão, escolhera viver na recém fundada cidade de São José do Rio Preto, no começo dos anos 20 um promissor ajuntamento cercado por grandes fazendas de café.

Mas jamais trabalhou na lavoura. Ganhava a vida lecionando Latim para os alunos do Gimnasio Diocesano e montando um negócio até então inédito na cidade: uma banca de jornais, que instalou providencialmente próximo à estação ferroviária, onde o trem deixava diariamente os pacotes de O Estado de S. Paulo, Folha da Noite  e algumas poucas outras publicações da época.

À mãe, Úrsula – que ninguém conhecia senão como Dona Nenê – Luís deve o invejável senso prático que parece ter definido sua opção por não estudar além do grupo escolar. Nas noites quentes de Rio Preto, a ajudava na tarefa de empalhar cadeiras, atividade que complementava a renda da casa, já então com outros dois moradores – Clementina, a irmã do meio e Fernando, o caçula.

A paixão pela música e a voz que imitava o ídolo lhe renderam até um disco, um long-play contendo algumas das composições próprias que o barbeiro se atrevia a fazer.

Luís nasceu em uma casa simples, onde hoje se encontra a região nobre do centro de Rio Preto. Na juventude, morou em São Paulo, onde alugava uma cadeira de barbeiro em salão prestigiado no centro da cidade e se arriscava na vida boêmia. Gostava mesmo era de frequentar casas noturnas, flertar na inocência da época e cantar pela noite sucessos de Francisco Alves, sua grande inspiração, tangos argentinos e uma empolgada versão de Granada. A paixão pela música e a voz que imitava o ídolo lhe renderam até um disco, um long-play contendo algumas das composições próprias que o barbeiro se atrevia a fazer.

Granada

Amigo Covarde

Atrevimento, aliás, que lhe rendeu uma candidatura nada promissora de vereador pelo Partido de Representação Popular, que se concentrava na imagem do chefe Plínio Salgado. Na versão tupiniquim, Luís se juntava aos irmãos integralistas na saudação pública que era acompanhada do grito indígena Anauê! “Eu gostava dos ditadores, o Mussolini, o Ítler, o Perón… é, eu gostava desses fascistas e nazistas”, falava, ultimamente, com um tom de quem assume as bobagens da juventude. “Pelo menos eu fui atrevido”, compensava.

“O pai do rapaz da foto era meu amigo e eu não queria que ele visse o cartaz na minha banca”

A estranha admiração por estados ditatoriais parece ter cessado com o interminável governo de Getúlio Vargas e com sua coincidente volta ao interior, no início dos anos 1950. Pela época da ditadura militar, já nos anos 1960, desprezou as suas convicções conservadoras em respeito a uma amizade. Policiais resolveram afixar na lateral de sua banca de jornal um cartaz do tipo “Terroristas Procurados”, em que aparecia a foto de um jovem estudante envolvido em protestos no Rio de Janeiro. Mal os policiais se afastaram, Luís arrancou o cartaz e o destruiu.  “O pai do rapaz da foto era meu amigo e eu não queria que ele visse o cartaz na minha banca”, lembrava-se. O estudante “procurado” pela Polícia era Aloysio Nunes Ferreira Filho, mais tarde exilado na França, depois anistiado, envolvido na política e no ano de 2010, eleito senador pelo Estado de São Paulo com a maior votação de toda  a história para o cargo.

De volta a Rio Preto, Luís assumiu o negócio de jornais e revistas do pai e, cansado da vida agitada na capital, logo rendeu-se aos atrativos da tranquilidade e casou-se com Carmem Benitez, a primogênita de um casal de espanhóis que tocava uma máquina de beneficiamento de arroz na cidade. Sua paixão pelo nacionalismo só se manifestou uma vez mais com o nascimento do segundo filho, a quem Luís fez questão de batizar com o nome de Brasil Rey, numa homenagem à sua pátria amada. É claro que sua esposa foi contra, mas ela que já tinha conseguido salvar o nome do filho mais velho, não pôde se opor à escolha do marido, que fora contemplado com a tradicional teimosia de seus antepassados espanhóis.

Num dia em que faltava energia elétrica, o barman lhe serviu a bebida no balcão sem se dar conta de que substituíra a dose de cachaça pelo querosene usado para acender as lamparinas. O bebedor de goles decididos só percebeu o engano depois de saborosa talagada.

À rotina de fechar a banca de jornal a cada noite seguia-se o hábito de entrar no bar logo à frente e pedir um rabo-de-galo. Num dia em que faltava energia elétrica, o barman lhe serviu a bebida no balcão sem se dar conta de que substituíra a dose de cachaça pelo querosene usado para acender as lamparinas. O bebedor de goles decididos só percebeu o engano depois de saborosa talagada. O corre-corre, a preocupação, as receitas caseiras contra envenenamento só cessaram depois do telefonema a um médico amigo: “Não se preocupe, Luís. A única coisa que vai acontecer é que você nunca mais vai ter aquela coceirinha irritante provocada pela lombriga branca..”

Nos últimos anos, a rotina de Luís era muito menos agitada. Passava a maior parte do dia sentado em sua cadeira de balanço, confortavelmente disposta no alpendre, de onde via a rotina passar pela rua, movimentada de carros e ônibus. O velho hábito adquirido na capital de apostar em corridas de cavalo no Jockey Club foi convenientemente substituído pelo hábito religioso de jogar na loteria federal, sempre os mesmos números. Um dia desses, ele foi à casa lotérica para conferir sua fézinha, mas, em vez de olhar o resultado, olhou seu próprio jogo e, por algumas horas, fez planos de como distribuiria sua fortuna entre a família e os amigos.

Noventa anos parece muita coisa, mas, apesar de alguns problemas de saúde, não se pode dizer que ele estava cansado. “Vô, 90 anos passam rápido?”, perguntei uma vez. “Muito rápido”, ele disse.

“Eu completei 89, mas estou entrando nos 90”

Bom humor, otimismo, paciência e humildade. Essas foram as lições deixadas por seo Luís, meu avô, que hoje, 31 de outubro de 2012, estaria completando 90 anos. Idade que, aliás, ele já comemorava há um ano de acordo com sua lógica singular de aniversários. “Eu completei 89, mas estou entrando nos 90”. Justo.

Diário da Região, São José do Rio Preto, 16/09/2012
Bom Dia, São José do Rio Preto, 20/09/2012

Vô, obrigada por sua maravilhosa companhia todos esses anos. Feliz aniversário!

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