Oscar 2012: A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Indicações (#11) (recordista do ano!):

Trilha Sonora Original
Direção de Arte
Fotografia
Figurino
Edição
Edição de Som
Mixagem de Som
Efeitos Visuais
Roteiro Adaptado
Melhor Diretor (Martin Scorsese)
Melhor Filme 

Hugo Cabret é um menino que vive na Gare du Nord, estação de trem de Paris, cuidando dos relógios do local. O filme mostra a “aventura” vivida por esse garoto e sua nova amiga. Deixe de lado o mistério, esqueça a tal “aventura”, ignore a invenção do título em português… Hugo é mais que isso, é uma homenagem.

Este post contém SPOILERS e exige paciência, já que ficou enorme.

Alguma coisa na minha cabeça, há um tempo já, me dizia sempre que Hugo era uma animação. Assim, por um longo período, eu vivi imaginando isso. Mesmo depois de descobrir que eu estava errada, minha mente não desistiu da ideia. Por isso, quando fui ao cinema e a moça disse: “é dublado”, eu nem liguei. Ao som da primeira fala eu tive um choque de realidade. Mas nem mesmo isso atrapalhou minha experiência com o filme.

Não atrapalhou, mas é a partir daqui que eu faço minha primeira crítica a Hugo: o fato de ele ter sido vendido (em maior ou menor grau) como um filme infantil (isso quando não foi classificado como “aventura”). Os posters, o trailer, o título… tudo contribuiu para que a imagem passada não fosse real. Apesar de ter sido baseado em um livro infantil, o filme não é para crianças.

E é disso que vem a segunda crítica. Hugo tem sim um início infantilizado (e mesmo personagens caricaturais, como o Inspetor da Estação, que seguem pelo filme todo), mas isso é mera introdução para a verdadeira história do filme, que compõe uma – linda – homenagem ao cinema. Assim, encaro isso como uma falha de roteiro (o que, pra mim, faz as chances de levar roteiro adaptado caírem).

O problema é que como introdução, deveria se portar como tal. E não é isso que acontece. Hugo, o autônomo, o livrinho de desenhos, o inspetor e situações corriqueiras tomam pelo menos uma hora de filme. Eu até reconheço que isso deveria estar ali, mas para introduzir ao tema ao qual desejavam dar atenção.

Fora isso o filme é meio longo mesmo, poderia – fácil – ter uma meia hora a menos. Só cortar algumas das sequências sem diálogos e/ou repetidas. No entanto, apesar de começar enumerando alguns “defeitos” de Hugo, eu adorei o filme. É um longa excelente, e iremos discutir o porquê disso a seguir. (Tanto é bom que nada do que foi dito até aqui chega realmente a ser um incômodo real.)

Apesar de usar o autônomo, a chave e a tal aventura de Hugo – que busca desesperadamente por uma mensagem de seu pai morto – quase como um MacGuffin, isso é importante para nos levar até o dono da loja de brinquedos, Méliès, e para mostrar a relação de Hugo, agora sozinho, e seu pai falecido.

*MacGuffin era uma espécie de artimanha utilizada por Hitchcock em seus filmes. É, basicamente, quando um tema é usado para introduzir a verdadeira questão a ser abordada no filme. Por vezes, esse acontecimento inicial é inteiramente esquecido no enredo. Coincidência ou não, Scorsese era um grande fã de Hitchcock. Alguém aí lembra de Key to Reserva? Uma “veneração” a Alfred.

Assim como acontece em “Tão Forte e Tão Perto”, a busca não é por um objeto, a busca é de fato o buscar. É um filho mantendo-se próximo de seu pai (que já se foi) a qualquer custo; é como se nisso eles estivessem juntos mais uma vez.

Porém, o interessante em Hugo é quando o garoto expande seu universo. É quando temos a entrada de diferentes personagens no enredo, como a garota Isabelle e seu tio Georges (Ben Kingsley), que a trama cresce e vemos surgir, aos poucos, algo promissor.

Na Paris dos anos 30, a vida de um garoto que vive dentro das paredes da estação de trem, encontra-se com a de um cineasta falido. Com o propósito de “consertar coisas”, Hugo conserta mais do que um autonômo quebrado, ele “junta os caquinhos” de Méliès.

Deixando isso tudo de lado, o que realmente me conquistou em Hugo foi o respeito com o qual Scorsese trata o cinema. É possível entrever em cada fala, cada projeção, um sentimento doce e grato.

O cinema visto como uma válcula de escape, como um mundo dos sonhos é algo que me sensibilizou especialmente, afinal, é exatamente isso que ele é pra mim. Entendo, apóio e acho importantíssima e mesmo necessária a função do cinema como ferramenta social, espaço para discussão de pautas relevantes e ainda opção de denúncias e construção de obras ricas e profundas.

No entanto, foi aquele mundo captado por Méliès (o real!) que me conquistou. São aqueles sonhos que me fazem sair de casa todo domingo, tendo certeza de que terei uma experiência cinematográfica (de qualidade boa ou ruim é outra discussão), e já é suficiente.

Eles falam com tanto carinho sobre o cinema, que se você é sensível, de alguma maneira, à sétima arte, também vai entender. E mais, simpatizar. Identificar-se.

E é isso, pra mim, o melhor de Hugo.

Além disso, temos ainda algo incrivelmente interessante em Hugo: as referências do cinema pré década de 20. É difícil assistirmos a filmes produzidos antes disso, e ver essa “pré-história” do cinema sendo retratada de forma lúdica e bela é muito legal.

Quando paramos pra pensar, os ciclos cinematográficos são fantásticos. Observar no longa a locomotiva que assustava as pessoas, que temiam que ela fosse sair da tela e atropelá-las, através de uma tecnologia 3D, quando a locomotiva realmente “sairia da tela”, é, no mínimo, incrível.

Li por aí que o fato de Hugo cuidar dos relógios é uma metáfora para o cineasta, que controla o tempo e o universo de seu filme – mesmo sem fazer parte concreta dele. Achei interessante, mas não sei até que ponto isso foi mesmo pensado. Agora, o que eu sei, é que a vida de Georges Méliès, pioneiro do cinema de fantasia, era o foco real do filme.

Foi ele um dos primeiros cineastas que propuseram que sonho e imaginação poderiam sobrepôr-se ao real dentro do cinema. Uma realidade paralela era possível, positiva e mesmo indicada. Só não entendi porquê o cinema fantasioso perdeu espaço após a GM I, quando o esperado era que a necessidade pela “fuga” da realidade era ainda maior.

Georges, como o filme mostra, realmente viu a projeção dos irmãos Lumiere, teve um teatro e foi mesmo um ilusionista famoso. Ele também construiu o primeiro estúdio de cinema da Europa e foi o primeiro a usar storyboards (todos agradece!). Além disso, seus efeitos mágicos visuais renderam-lhe o título de “pai dos efeitos especiais”.

Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune), de 1902 (!), é um de seus filmes mais conhecidos.

Quanto ao resto de Hugo, o que podemos dizer é que Scorsese caprichou. A atmosfera na estação é incrivelmente parisiense, e o visual chega, por vezes, a ter um quê de Moulin Rouge.

A fotografia é linda, dividida claramente em duas: em tons quentes (dentro da estação e em ambientes fechados, mostrando uma Paris acolhedora) e frios (fora da Gare du Nord, no inverno rigoroso e em situações mais infelizes).

Hugo também reserva um pedacinho para honrar a literatura. Também pudera, afinal, como já dissemos, esse é mais um dos indicados que veio de um livro (infantil) homônimo: The Invention of Hugo Cabret, SELZNICK, Brian.

Como todo bom filme 3D, temos alguns floquinhos e neve caindo sobre nós (não reclamo, foi bonito e nem soou forçado). Já a trilha sonora parece presente em quase todo o tempo. Raramente dava espaço integral aos diálogos, e tive quase certeza de que o som praticamente não cessou durante o filme.

Também me chamou atenção o merchan de época da Nestlé, muito bem aplicado. Eu particularmente adoro merchans em filmes assim. Quando bem colocados, ficam geniais e ainda carregam em si a ideia de uma marca tradicional.

As atuações não comprometem e nem são geniais. A direção de arte, por outro lado, é realmente linda (e deve vencer). Por fim, Hugo enaltece o cinema. Como mensagem e como formato. Grande obra de Martin Scorsese, que ousou, saiu-se muito bem e tem grandes chances de levar seu Oscar pra casa. É interessante pensar que “Hugo” saiu das mesmas mãos que criaram “Os Infiltrados”.

Vale ainda, para finalizarmos, uma comparação com o grande favorito da noite:

Hugo e O Artista, os dois filmes com mais indicações para a premiação desta noite são tão diferentes quanto semelhantes. Ambos têm força na temática que homenageia o cinema, no entanto, enquanto um escolheu como formato o preto e o branco, mudo, o outro explora o que há de mais moderno na produção cinematográfica. E quer saber? Os dois não se excluem, mais que isso, complementam-se. E isso é genial.

Na maior festa do cinema, dois filmes sobre a magia do cinema somam, juntos, 21 indicações.

Indicações (#11) (recordista do ano!):

Trilha Sonora Original
Apostas: não vence

Direção de Arte
Apostas: vence

Fotografia
Apostas: pode vencer

Figurino
Apostas: não vence

Edição
Apostas: não vence

Edição de Som
Apostas: enigma

Mixagem de Som
Apostas: enigma²

Efeitos Visuais
Apostas: não vence (Planeta dos Macacos!)

Roteiro Adaptado
Apostas: não vence (Os Descendentes?)

Melhor Diretor (Martin Scorsese)
Apostas: tem grandes chances, mas deve perder para Haznavicius

Melhor Filme
Apostas: não vence, a homenagem à moda antiga deve levar a melhor

 

Links relacionados:

Tonight, tonight – Smashing Pumpkins (isso que a gente pode chamar de referência/homenagem)

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5 comentários sobre “Oscar 2012: A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

    1. Apavoramos hahahahaha (o que também quer dizer que o Oscar está CADA DIA MAIS previsível). Mas foi justo né? 🙂

  1. Foi, achei bem justo, até as surpresas. Achei muito interessante o fato de nenhum dos dois filmes que ganharam roteiro (original e adaptado) terem levado o de melhor filme. normalmente uma coisa tá ligada à outra. mas foi bem justo e democrático! hahaha

    1. SIM hahaha, mas né, até porque não foram os melhores roteiros. Então foi bom! Discordo de muitas indicações, mas a partir dos indicados, achei as melhores escolhas 🙂

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