O livro do MEC

Já havíamos decidido não falar mais sobre o livro do MEC. Mas eis que na noite de antes de ontem (segunda), o CQC reavivou a discussão e resolvi postar aqui minha opinião sobre o tal do livro. Só esclarecendo, não é uma opinião política ou polêmica, é só o que eu acho de tudo isso (e até mesmo entre os blogueiros aqui do Biscoitos não existe consenso).

Vale dizer também que não tenho o contexto geral da situação, visto que não tive acesso ao livro. Por isso, vou analisar a questão apenas superficialmente. Também acho que isso vai muito além do certo x errado, mas vamos lá.

Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado.”

Tudo começa aqui.

Acredito que a grande discussão que o livro pretende trazer é que a comunicação é feita. Não importa se você usa a forma culta ou prefere o coloquialismo, o importante (o objetivo primordial) da comunicação é se fazer entender.  Uma vez que se entenda, esse objetivo foi alcançado e a comunicação é bem sucedida.

Eu concordo integralmente com isso. E acho ainda que existem situações & situações. Não me sinto bem conversando com meus amigos e usando todo e cada plural, ou conjugando corretamente verbo por verbo. Mas a diferença é que eu sei que não estou falando o português da Academia Brasileira de Letras.

Acho que cada momento pede uma forma de expressão adequada e é isso que importa. Mas o que acontece é que eu vejo isso como uma discussão mais direcionada a acadêmicos, a estudantes de universidade, não a alunos que ainda estão aprendendo o português formal.

Por que eu acho isso? Parece preconceito (e em parte talvez seja), mas é na escola que a criança irá aprender a usar essa língua culta. E não vejo (mesmo) problemas em falar que existem variantes linguísticas (acho, inclusive que isso deve ser frisado). Acontece que ainda vejo um espaço entre assinalar isso e procurar combater o preconceito linguístico dessa maneira.

Eu acho tudo isso extremamente complicado. Delicado. Porque embora eu veja isso como uma ação legal, na tentativa de não excluir ninguém, ainda é discutível. Porque vai muito da sensibilidade do professor em sala para passar isso… e sinceramente, pode se tornar difícil a compreensão de que se ‘falar assim’ está certo, por que então eu teria que aprender a falar de outro jeito?

Aí, então, acho que o buraco é mais embaixo. Não sou radical de pensar que as pessoas não vão mais falar “correto” (o rebuscado mesmo), de que um futuro entrevistado para um emprego não vá saber concordância, mas acho que em certo nível isso pode ser prejudicial. Afinal, é a escola… e lá é ensinada a norma culta do português. Mas ainda acho válido que sejam explicadas as variações linguísticas, o regionalismo, o português formal e o informal, etc.

Isso sem entrar nos méritos de que temos, sim, 2 línguas no Brasil: o português falado e o português escrito. No entanto, o ideal seria aprender os dois né? Agora, não acho que seja (como o CQC em certo momento “brincou” sutilmente) uma questão meramente política ou rasa como “os livros do MEC ensinam português errado”. Nem concordo que a afirmação de que os livros estão falando a linguagem do presidente. Já é um pouco demais.

No fim das contas, pra mim, isso acaba soando um pouco como as alterações do acordo linguístico. As mudanças recentes como o fim do trema ( AI! 😦 ). É mais uma questão pessoal. Assim como me doeu ver todo o português que aprendi a gostar e a usar ser mudado assim, de repente, me causa certo estranhamento toda essa situação (porque eu acho que ela pode gerar mais confusão do que qualquer outra coisa).

Mas é o que eu acho. É mais pelo carinho que tenho pela língua.  E no vestibular vai continuar caindo a norma culta. Fora que essa discussão é praticamente certa no ENEM.

Mas o preconceito linguístico e as variantes do português devem continuar sendo abordadas, só não me pergunte como. Não tenho soluções. Às vezes, no fim das contas, é o MEC que tá certo.

(Preconceito (BULLYING? haha) linguístico: eu já sofri (nesse mesmo blog). Perguntaram se “essa Letícia” que comentava os posts era a mesma que os escrevia. Quando disse que sim, torceram o nariz e disseram “nossa, não parece…….”. Acontece. Não muda nada na minha vida, vou continuar dizendo: “os filme pararo de passar” e continuar escrevendo “Os filmes pararam de ser veiculados“. Adaptação, a gente vê por aqui.)

Publicado por: Lê scalia

Anúncios

5 comentários sobre “O livro do MEC

  1. Em parte, eu concordo com a aprendizagem das variantes linguísticas que existem. Mas, existe um “porém” nesta história toda, como tu por pouco frisaste –
    Este livro, em meu modo de ver, não devia ser dado a crianças que pretendem aprender a norma culta, afinal, elas têm uma super capacidade de memorização, mesmo que seja apenas nos seus subconscientes.
    Se algumas pessoas aprendem a escrever “serto” fazendo leituras, que crianças teremos daqui a um quinquénio, visto que elas estarão sendo bombardeadas com frases escritas de formas completamente diferentes em livros didácticos.
    Insisto dizer que não sou contra à existência do livro, contudo, não concordo que ela deva ser dada as crianças, sim aos adultos, que já sabem falar minimamente o “certo”. Se não, em certo que teremos um Brasil se despedaçando.

  2. Retirado do blog Brasil Soberano http://brazilsoberano.blogspot.com

    Fomos educados com mentalidade da gramática tradicional que já tem alguns milênios,daí a dificuldade que temos de vencer essa barreira, a semiliguística tem apenas uns cento e poucos anos. O que admiro na semilinguística é que devemos ser poliglota na mesma língua e que isso levará um aprofundamento na própria cultura; que existe uma diversidade de formas de se expressar e que não devemos aniquilar os meios e as forma de expressão. Nenhuma forma deve ser considerada superior a outra, diferente da gramática. Quando mais formas aprendermos a expressar, maior será nosso conhecimento linguístico e maior será nossa capacidade de interpretação e expressão. O que seria da literatura de cordel, da nossa música, de Guimarães Rosa e tantos outros se tivéssemos apenas a lente da gramática tradicional? O que seria dos dialetos, gírias, expressões idiomáticas, literatura contemporânea etc se gramática tradicional prevalecesse? Estaríamos falando latim até hoje e nosso português nem iria existir, mas graças aos faladores “errados” o português pôde nascer e se modificar. Ou quem sabe estaríamos falando português de Portugal do sec XIII, e não um português brasileiro que se modifica a cada geração para o terror da gramática que sempre é obrigada a mudar suas regras graças a vivicidade da linguagem que ela tem dificuldade de considerar. A gramática tradicional é tão limitada que apenas consegue ter como objeto de estudo uma forma de se expressar, enquanto para a semilisguística todas as formas podem produzir conhecimento e devem ser interpretadas. Apesar disso a gramática também tem a importância de ser mais uma forma de expressão da riqueza da linguagens. Claro que não devemos abolir a gramática, mas sim aprender a nossa língua de modo mais amplo possível. Ensinar apenas uma linguagem é tão ruim quanto cultivar uma monocultura de soja. A natureza se comporta melhor quando há diversidade. Talvez produziríamos mais conhecimento, tolerância, respeito se rompêssemos as barreiras da monocultural gramática. A gramática não é ruim por ela em si, mas quando ela tenta reprimir o ensinamento da diversidade da comunicação. Viva as ciências semilinguínsticas que também consideram a gramática em seu universo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s