Um Erro Emocional – Cristovão Tezza

“Saboroso”. Foi essa a palavra que mais marcou os seis meses que convivi com Cristovão Tezza, na sala da aula da universidade. Tanto pelo adjetivo, que em si caracteriza esse tempo, como pela voz do professor que sempre dizia isso. “Saboroso”, e logo após a piada, dava gargalhadas características. Se algo levo da universidade, as duas aulas semanais, durante um semestre, com Cristovão Tezza com certeza estão lá.

 

Tezza, o próprio. (Foto: Guilherme Pupo/Divulgação)

Mas o que eu quero dizer é que a frase inicial do novo romance de Cristovão Tezza, catarinense de Lages radicado desde sempre em Curitiba, entra no rol de frases inesquecíveis da literatura brasileira: “Cometi um erro emocional”. Sua nova obra, “Um Erro Emocional” (Record, 2010, 192 páginas) é a primeira depois do aclamado “O Filho Eterno”, que lhe rendeu os prêmios mais importantes da literatura brasileira em 2008 e 2009 (Jabuti de melhor romance, São Paulo de Literatura, Portugal Telecom e outros). Depois de uma obra largamente premiada, espera-se de um autor outra pelo menos com a mesma qualidade.

Mas o que Tezza traz com sua nova obra é irrepreensível. Erigido por um autor que já alcançou sua maioridade literária, o livro reflete justamente isso: a maturidade. Uma única cena, um único diálogo, entre um homem de 42 anos, separado, e uma mulher nos seus 30, que o recebe em sua própria casa é o jugo que Tezza toma para si para compor a obra. O incrível é que o autor transforma essa cena comum, talvez corriqueira, em uma grande composição literária.

 

Edição da Record segue as "republicações" das obras anteriores do autor. (Divulgação)

Cento e noventa e duas páginas depois da primeira frase o que o leitor experimenta é uma sensação estranha, contrária àquela vontade comum de querer saber o desenlace de um livro. O que se sente, acompanhando o diálogo entre Paulo Donetti e Beatriz, é uma vontade de o livro não acabar, com a certeza de que o próximo a ser lido não será tão bom quanto esse. A sensação é que Tezza poderia continuar escrevendo esse romance para sempre.

O que se acompanha não é meramente o diálogo entre os dois personagens – ele caberia facilmente em dez páginas do livro, dando um palpite -, mas sim uma desconstrução da vida daquelas duas pessoas. Cada frase, cada entonação, e muitas vezes cada palavra que ambos utilizam nesse diálogo traz uma lembrança, um fato, uma marca do passado e da personalidade. E é exatamente aqui que Tezza ganha o leitor – por meio daquele diálogo comum, o autor molda dois personagens bastante profundos.

O que o autor faz é colocar os pensamentos dos personagens em primeiro plano, ocupando o lugar das descrições de cenário, da fala propriamente de um narrador. Para isso, o autor também adapta a linguagem ao fluxo de pensamentos de qualquer ser humano: frenético, lacônico e ao mesmo tempo frequentemente interrompido, e de maneira bastante precisa. O que ele faz é transformar esse ato corriqueiro – de nem sempre se dizer o que se pensa, às vezes até o contrário – em um romance denso e muito característico.

 

Tezza recebendo o Portugal Telecom, um dos prêmios que ele levou com "O Filho Eterno" (Divulgação)

– Que o escritor tem de descobrir tudo sozinho, e é assim mesmo que eu sempre quis – e ele se empertigou num segundo tenso, o que ela percebeu, recolhendo lenta a página amarela tentando descobrir o que estaria acontecendo, mas o próprio Donetti desfez a couraça com um suspiro: – Bem, agora, e ele parecia procurar a palavra – agora eu me entrego. Acho que você – e mais uma vez ele procurava a palavra – é a pessoa – e ele frisou – perfeita”. (trecho de “Um Erro Emocional”, página 61)

E eu não consigo achar outra palavra para resumir esse livro que não aquela: “Saboroso”.

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6 comentários sobre “Um Erro Emocional – Cristovão Tezza

  1. Com certeza absoluta o final é o que menos importa nesse livro. ahahaha
    Eu já falei bastante com você dele, né, gui? ahahaha mas tem uma coisa muito foda nele: você não se sente distante dos personagens, pq eh como se eles fossem você mesmo. É como se a gente encarnasse o personagem enquanto lê a consciência dele. Você não se perde enquanto lê, não se interrompe, pq os personagens fazem isso por vc.
    Enfim, é muito loco ahahahaha
    com certeza vale a leitura.
    Assim que o Gui me devolver, terei um exemplar disponível para empréstimo! ahahahahahahahaha

    Excelente post, gui! 🙂

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