En passant

As luzes da cidade acesas, clareando a foto sobre a mesa. Seus cantos já amassados, mas tentei me concentrar além do que eu via.  Era como se naquela penumbra, por um acaso do destino, eu fosse encontrar a resposta ali. Como se continuar encarando aquela mesma fotografia fosse dar sentido à tudo.

Eu nunca havia me importado. Ou aprendera a não me importar.

Ela me olhava no fundo dos olhos e eu sentia a obrigação, mais que legal, de fazer alguma coisa. Uma obrigação moral que eu nunca experimentara antes e, doía dizer, provavelmente não experimentaria novamente.

Levantei os olhos devagar e observei o quadro, lotado de anotações sem ligação e mais fotos. Nenhuma delas me causava sequer compaixão. Desde que me tornara detetive, eu havia mudado. Eram, agora, apenas partes de um quebra-cabeça sinistro naquela disputa particular que eu travara com meu ‘inimigo’.

Eu não gostava de chamá-lo assim, mas a mídia cunhara o termo. Pra mim, ele era só um oponente em uma partida de xadrez bem arquitetada. Um erro, um movimento em falso, e xeque-mate. Teria sido assim até o final, mas ela apareceu.

Comecei a sentir o que as pessoas normais – e quando digo ‘normais’ acho que me refiro aos não-profissionais – sentiriam em situações assim. Não era mais o mistério que me movia. Não era o desafio. Nem mesmo a necessidade de fazer justiça.

Era vingança.

Senti o corte ainda aberto em minha bochecha arder. Meu último encontro com “o inimigo” havia provocado aquilo. Fechei os olhos, decidido, tentando dar total liberdade ao meu cérebro. Quem sabe assim, ele talvez pudesse juntar as peças por si só. Ligar aquele vulto ágil a alguém no meio daquela confusão de fatos e falhas.

Repassei, mental e cronologicamente, cada evento, cada dia, cada pista, cada morte. Não fazia sentido. Era como se ele conduzisse meus pensamentos, como se planejasse cada jogada para me deixar com a sensação de que tudo estava sob controle. No entanto, seu rei permanecia sempre seguro. Sempre intocável.

Eu me sentia manipulado e não fazia idéia de como mudar aquela situação. Meu ego, que nunca fora exatamente “bem contido”, parecia prestes a encontrar uma solução sozinho se eu não resolvesse aquilo logo. Geralmente, não me importava com o que as pessoas achavam de mim. Mas isso provavelmente acontecia enquanto eu era admirado. Ou considerado um “babaca genial”. Nunca havia sido feito de bobo. Mas dizem que pra tudo tem a primeira vez.

E, serei sincero, aquela primeira vez estava sendo traumatizante. Não deixaria acontecer novamente. Um barulho insistente vindo de baixo fez com que, irritado, eu abaixasse o olhar e encarasse o chão. Meu relógio de pulso apitava, piscando de modo falho, do outro lado da sala. Nem me lembrava de que ele acabara largado ali, quebrado e jogado num canto.

Ele ganhara o vidro rachado no mesmo dia em que eu ganhara minha nova cicatriz. Minha boca se abriu e eu me ouvi exclamar “Puta que pariu!” quando, finalmente naquele jogo, a vantagem era minha.

***

A partir de hoje, inicia-se um experimento no blog. Essa estória aqui começada será continuada por outro integrante dos Biscoitos, na próxima semana. Palpites, comentários, dúvidas, sugestões ou se alguém (Lailis! haha) quiser participar, serão muito bem-vindos. Espero que se divirtam lendo tanto quanto a gente vai se divertir escrevendo!

En passant.

Publicado por: Lê Scalia

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