O bebê feio

Já ouviu a história do bebê feio? Ninguém queria pegar ele no colo, então ele aprendeu a andar cedo. Super cedo.

Eu, veja você, comecei no andador com 4 meses, e isso meio que é motivo de orgulho para minha mãe. Com 7, eu já andava sozinha, e sempre que ela conta isso, as pessoas se espantam e, claro, sempre lembram da história do bebê feio.

Não existia um sapato que coubesse no meu pé. O menor era imenso. Mas, eu fui vestida nele. Levei alguns tombos por causa disso? Com certeza. Mas o que a minha mãe ia fazer, me deixar descalça? O meu pé demorou para caber naquele tênis. Mas eu andei neles, muito, até uma hora que eles ficaram pequenos para mim. Naturalmente.

Depois, na adolescência, ainda era difícil de definir qual número eu calçava. Não foram raras as vezes em que eu tive que esperar para usar os tênis que a minha mãe comprava. Pelo menos, esse era o conselho: esperar. Mas, quem me conhece sabe que a teimosia, além da pressa, é um dos meus fortes. Nunca me importou se fosse dar bolha, se eu ia ficar com pés de palhaço ou se eu ia levar muitos tombos. Se eu achasse que conseguia, tava feito e, pior, eu estava andando neles perfeitamente, antes que alguém dissesse que tinha alguma coisa estranha. Ou, pelo menos, era disso que eu tentava me convencer. E convencer aos outros.

Depois de um pouco mais crescida, ainda afobada, eu descobri um outro jeito de andar sozinha, não muito seguro igual e com risco de tombos ainda maior. No dia da entrevista, eu ouvi com alegria que a minha contratação era um favor, em nome do meu pai. Ótimo. Eu estava calçando uma função maior que o meu pé. Muito maior. Mas, mais cedo ou mais tarde, eu ia aprender a andar sozinha. Usasse andador, muleta, bengala, rodinha ou que fosse. Porque outra coisa que eu sou é orgulhosa. Claro que eu senti medo de cair quando eu dei os primeiros passos. Mas esse negócio de insegurança é uma coisa que a gente engole. Ou a gente pelo menos tenta, porque tem que.

Eu tentei. Demorei um pouco mais de três meses, mas foi. Ganhei um prêmio com isso e o sapato começou a apertar, mas eu hesitei em arrumar outro. Consciente ou inconscientemente, pela primeira vez na minha vida. Acostumada a dar passos maiores que a própria perna, eu teimei mais uma vez. E agora tenho que aprender a andar de novo.

Tudo isso para obedecer a essa minha ânsia de estar à frente. Antecipar, adiantar, acelerar. Transformar passos em uma corrida. E tudo em uma competição, contra mim mesma. Com gana, com sede de vencer, a mim mesma. Para ser a melhor que a mim mesma. Para evitar críticas, minhas. Porque ninguém sabe me criticar melhor do que eu mesma. Ninguém me ofende mais do que eu mesma. E quando isso acontece, imagine você o meu desespero por alguém fazer uma crítica a mim, antes de mim. Nunca importa do que se trata. Importa que eu deveria ter visto antes. Doentio, sem dúvida.

Se eu era um bebê de fato feio, eu não sei. Mas com certeza eu não ia esperar que me dissessem, se eu fosse. Era melhor eu aprender a andar logo, o mais rápido possível, antes que alguém renegasse colo para mim. Eu super não me espantaria se esse tivesse de fato sido o meu pensamento de bebê. Se eu dei uma passo maior que a perna? Naquela época, não era difícil. Agora? Não é mais novidade. A diferença é que eu ainda não sei para que lado correr atrás.

O primeiro. Muito maior que o pé, quase maior que a perna.
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