Um peso, duas medidas

Enquanto vemos por todos os lados os defensores da “liberdade de imprensa”, reclamando pra quem quiser ouvir da política que ameça a volta do AI-5, um fato estranho acontece.

Aliás, fatos estranhos acontecem. Sim, enquanto todo mundo mete a boca pra falar que todo cidadão tem o direito de se expressar, os dois maiores jornais do país – só isso, os dois MAIORES impressos do PAÍS – cometem atos de censura clara e simples.

Comecemos pelo mais recente. O Estadão, (O Estado de São Paulo) quase (?) mandou embora a jornalista que ousou ter uma opinião contrária à do jornal, que declarou abertamente seu apoio ao candidato José Serra pouco tempo atrás. Maria Rita Kehl quase perdeu o emprego por defender os “absurdos assistencialismos” do governo. Duas versões correm na net: 1. que agora ela terá seus textos “analisados” antes da publicação; e 2. que ela foi, de fato, demitida. E tem uma por fora, mais provável: ela pode ter sido ‘só’ afastada.

Censura? Não, que isso. Censura é o que a Folha (Folha de São Paulo) fez com seu site-irmão, o Falha de São Paulo (que já é genial só pelo título). Acionou a justiça, alegando uso ilegal da marca, e impôs multa de 1000 reais por dia enquanto o site permanecesse no ar. A galera tirou, claro. Mas agora ainda têm um processo de 80 folhas pra analisar e descobrir como se livrar dessa.

O que tinha no site que pudesse incomodar tanto? Uma “releitura” do premiado comercial da Folha que falava ser possível contar uma mentira dizendo apenas verdades e, no fim, mostrava o Hitler. A nova versão mostra o Serra e diz: “Folha, não dá pra ler”. Ah, vai… é engraçado. É um site de humor, só isso. Não deveria gerar uma mobilização de um dos maiores veículos midiáticos do nosso Brasil.

Mas gerou.

 

Autoexplicativo.

 

E estão usando a mesma advogada que usaram em outros grandes casos, como para defender José Simão. Aliás, ele pode. Os outros não. Que fique bem claro: eu adoro o Macaco Simão, leio a Folha (online, é verdade) todos os dias, gosto de dar um pulinho no Estadão. Mas com os acontecimentos recentes me decepcionei profundamente com ambos. Principalmente com o episódio do Estado, que se voltou contra “um dos seus”.

E aí, onde vamos parar? Daqui a pouco tão fechando o Biscoitos também. Mentira, não somos tão importantes haha. Mas sério, é hipocrisia. Então é assim? Liberdade pra imprensa só vale quando eu quero falar. Quando é pra falarem de mim, não! Dois pesos e duas medidas. Ou, na expressão menos charmosa mais correta: um peso, duas medidas.

(Por ironia, o artigo da Maria Rita Kehl no Estadão se chamava “Dois pesos…” e você pode conferi-lo aqui.)

Atualização 1: Faltou uma hipótese, bem lembrada por amigas: é tudo uma jogada política ou de alguém sem muito o que fazer. Parece mais crível. Mais sensato do que uma atitude descabida dessas… portanto, assim que souber realmente o que se passou esse post será atualizado.

Atualização 2: O jornalista Xico Sá diz ter “fonte segura” e afirma que Maria Rita não foi ou será demitida, mas a partir de agora não deverá escrever mais sobre política, apenas psicanálise.

Atualização 3: De acordo com o Terra, Maria Rita Kehl foi “convidada a sair” por ter acabado seu ciclo no Estadão. A Entrevista com a psicanalista pode ser lida aqui.

Links relacionados:

Boteco Sujo (que conta o caso inteiro do Falha de São Paulo, muito bom)
O valor do pluralismo, excelente artigo de opinião no Estadão, por Eugênio Bucci

Publicado por: Lê Scalia

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6 comentários sobre “Um peso, duas medidas

  1. Tá tudo errado, ultimamente.

    Há exageros dos dois lados – pelos acontecimentos de hoje, principalmente, esses exageros são BEM maiores do lado da mídia.

    Todo dia, repito, TODO SANTO DIA, o Estadão dedica um espaço do seu impresso para um “selo”: “Estamos a 400 dias sob censura” (em relação a perseguição que executou no filho do Sarney… eles estão certos, mas isso é meio que exagerado). QUE CENSURA, MEU DEUS DO CÉU?

    O único caso de censura de nível nacional que eu presenciei na minha curta vida de 19 anos foi hoje. Um jornal, que garante que as preferências editoriais não se confundem com a cobertura jornalística, demite sua própria colaboradora que OUSA elogiar o melhor governo que esse país já viu. Eu prefiro não acreditar que isso aconteceu.

    Fora isso, Lê, belo post! (Aliás, se vc ler o texto da Maria Rita vai perceber que os assistencialismos do governo não são, afinal absurdos hehe)

  2. Sobs, my dear, hahahaha eu li o texto dela. É claro que li. E quando eu disse ‘assistencialismo absurdo’ eu defendi a mesma opinião que ela defendeu. Não é absurdo… é necessário nas atuais conjunturas. Não dá pra obrigar ngm a ir pra escola se essa pessoa tem que se preocupar em comer e em sobreviver.
    Não defendo o Lula ou o PT ou qq um que seja. Mas acho que ações como essa são mais do que válidas até que as coisas comecem a ser consertadas pela base.
    E siiiiiiiim, está tudo errado.
    É ridículo censurar um órgão da imprensa e é mais ridículo ainda censurar um colaborador SEU.

  3. ai, gente, que palhaçada censurar um site hein? uahuahauhauahauahau as pessoas realmente não sabem lidar com a internet AINDA.

    quanto ao caso do Estadão, outra palhaçada. Achei a atitude mais digna da imprensa brasileira, dar apoio abertamente a um candidato específico. Tem que parar com essa imparcialidade velada! As pessoas leem jornal pra formar opinião e não pra saber o que aconteceu no dia anterior! #prontofalei

    1. Lú, eu entendo isso e até certo ponto concordo. Como nos EUA, onde a imprensa assume lado e é isso aí. Mas eu não gosto disso… eu gostaria de uma imprensa ‘neutra’, embora isso seja praticamente impossível na prática.
      Todos já têm seus valores arraigados e não é possível se afastar completamente deles, mas é possível apresentar fatos sem ironia e sem esconder isso ou aquilo e enfatizar x ou y.
      Um veículo imparcial. Pelo menos pra apresentar as notícias, os fatos. E que tenha ali uma coluna de opinião, onde pode falar o q quiser.
      Porque nessa bagunça a gente nunca sabe o que é verdade, em que acreditar, no que acreditar… e isso eu acho foda.

  4. Repassando

    Parece coisa do CASSETA & PLANETA, mais é re(a)l

    Imagine um final de analise onde uma psicanalista ao se sentir oprimida por ser destituida da função de semblant de objeto a por parte do seu cliente, vai acabar no CTO.

    Estamos diante de algo parecido , quando uma analista articulista/periodista é destituida de sua função não vitalicia, porque contratual e vai acabar no CTO – Centro do Teatro do Oprimido.

    O mesmo CFP que vira as costas para os psicologos quando apelam para o órgão, ao serem demitidos, quando os serviços são terceirizados, dizendo isto é coisa para
    sindicato, agora veicula uma campanha sindical para uma psicanalista que perdeu o emprego. Um peso e duas medidas.

    Em momento algum Maria Rita Kehl foi proibida de falar. Seu artigo foi inclusive publicado. Maria Rita Kehl é apenas uma entre milhares de psicologos e não tinha nenhum contrato vitalício com o Estado de São Paulo. Simplesmente foi dispensada como são dispensados milhares de psicologos por este Brasil afora sem que nenhum
    Conselho se importe.

    Como psicanalista Maria Rita Kehl deve entender que não é o objeto , insubstituivel , mas apenas fez semblant de objeto “a” e tanto na midia como na análise o semblant de objeto cai quando se dá a travessia do fantasma.

    Maria Rita Kehl pontuou a preferencia do Estadão por Serra e este foi o ponto de ‘1basta para aquele(s) que a demandavam como jornalista-analista.

    Vitimiza-la é a maior ofensa que se pode fazê-la enquanto psicanalista, que teria cumprido o seu papel.

    Vitimiza-la é subtrair seu ato , que se analitico, teria produzido sua saida do Estadão.

    Recentemente o Estadão foi vitima de censura de imprensa , sendo proibido de publicar noticias envolvendo escandalos sobre a familia Sarney, que faz parte da
    base do governo Lula.

    É óbvio que um órgão de imprensa que vê seus direitos de expressão violados pela base governista, não é obrigado a remunerar uma articulista que faz propaganda
    por uma candidata identificada com esta base qie propõe a censura da imprensa e exerça influencia neste sentido.

    Tanto o Estadão como todos os demais órgãos de imprensa não são neutros e nem pretendem ser. Recentemente o Estadão assumiu publicamente o apoio a Serra e explicou porque. Acredito que a nossa querida psicanalista cumpriu o seu papel ajudando o Estadão a se assumir neste pleito , ainda que isto tenha significado
    o final de análise e a destituição da analista como semblant de objeto de desejo.

    Cabe agora saber se a analista atravessará tambem o seu fantasma da identificação imaginaria com o Estadão como o objeto da midia .

    Transferencia, morte, separação, acting outs, passagens ao ato. Identificação, luto, melancolia. Opressor-oprimido, relação especular.

    Em vez de se ressentir com a declinação da função de semblant de um objeto que não é ( que não há) que a analista articulista continue a se expressar em outros
    canais, como todos nós o fazemos.

    Abraços,
    Caio Cesar

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