Minha primeira cadeira

Por Rodrigo Rocha

Minha primeira cadeira foi um colo. Ele era quente, vivo, me ninava e dava de mamar pra mim. Essa cadeira sempre sorria, me achava lindo e me enchia de carinho.

Mas quando eu comecei a ficar mais pesado, experimentei uma segunda cadeira. Ela era elaborada, armada de ferro e pano. Fazia sombra e tinha até roda. Essa cadeira me levava pra vários lugares, dava pra ver o mundo e os joelhos dos pedestres. Mas essa cadeira não era quente. Ela fazia um barulho estranho e dava uns solavancos que não eram nada agradáveis.

Mais tarde, quando aprendi a sustentar minha coluna, eu ganhei outra cadeira. Essa era diferente, principalmente fria, lisa e enorme. O que eu não entendia era o fato de as pessoas não usarem ela pra sentar, como eu. Elas andavam por cima com seus calçados vestindo os pés como se fosse proibido o contato. E eu ficava lá sentado vendo canelas passarem. Acontece que essa cadeira me ajudou a engatinhar e depois a andar. Daí, essa cadeira já não servia mais pra sentar.

Bom, daí teve uma vez que a minha mãe decidiu me apresentar outra cadeira. Essa era estranha. Ela era igual a uma outra feita de cerâmica. Ela tinha tampa e uma cor bem chamativa, nem combinava com os azulejos que tinham em volta. Minha mãe me explicou que eu tinha que sentar lá toda vez que me desse vontade de usar a fralda. Bem, era um momento muito solitário e sempre terminava fedido demais. Ainda bem que eu não tinha que ficar ali sempre.

Teve outra vez que eu ganhei um banquinho do meu tamanho, foi legal porque eu comecei a me sentir igual a todos os grandões da casa. O problema é que eu só tinha esse, e sempre que eu irritava minha mãe, ela me punha pra sentar nesse banquinho, me dava uma bronca e só me deixava sair quando ela se acalmava. Maldito banquinho! Decidi que nunca mais iria usá-lo.

Mas daí eu entrei na escola e adivinha: tinha uma sala cheia de cadeiras e mesas todas do meu tamanho. Não somente eu, como outras crianças tinham que se sentar nelas. Elas eram duras e serviam pra gente olhar pra um quadro negro e uma tia gorda que fingia ser minha mãe. Eu tinha que fazer deveres sentado nessa sala, senão eu continuaria ali na sala pra sempre.

Sabe, até que não era tão ruim! Teve uma vez que, na minha frente, sentou uma menina linda naquela cadeira, e por baixo da mesinha onde ficavam os meus livros, eu recebia e mandava bilhetinhos. Claro teve umas vezes que esses bilhetinhos vinham com respostas de questões. Eram bilhetes secretos que a tia gorda não podia sonhar em ver.

Uma vez eu levei a menina linda pra assistir um filme, sentamos lado a lado em cadeiras aconchegantes dispostas em arquibancadas, o problema era aquele braço que nos separava.

Teve a outra vez que fomos a um parque de diversões. Nossa, quantas cadeiras perigosas. Tinha uma que subia 40 metros pra depois despencar. Me lembro que minha alma só alcançou o corpo 2 segundos depois. Tinha outra cadeira que me girava e eu queria vomitar. E uma que andava desgovernada sobre trilhos, e eu queria a minha mãe. Mas apesar das contusões, desespero, e adrenalina, todas essas cadeiras eram viciantes. Comecei a querer mais.

Teve uma época que eu decidi ser independente. Descobri que aquela cadeira que ficava bem na frente do volante do carro do meu pai servia não só para nos transportar para lugares, mas também para impressionar aquela menina linda. Decidi que queria aquela cadeira pra mim. Infelizmente descobri também que para sentar naquela cadeira, eu tinha que ter 18 anos, fazer um curso, seguir muitas regras e correr o risco de ser penalizado. Cadeirinha complicada de sentar!

Tudo bem, um dia ia chegar a hora. E chegou, foi na mesma época que eu experimentei uma outra cadeira, ela ficava na frente de um computador dentro de um departamento cheio de pessoas estressadas. Nessa cadeira, assumi muitas responsabilidades, e todo mês eu era recompensado com dinheiro, que me permitiu inclusive comprar uma cadeira com volante sobre rodas, melhor que a do meu pai. Acontece que nessa cadeira do departamento, eu comecei a ser privado de algumas coisas, porque nela eu tinha que ficar horas determinadas de todo o dia útil e sem reclamar. Acho que foi a cadeira que mais sentei. Queria mesmo era sentar na cadeira do meu patrão, parece ser mais fácil de sentar.

Enquanto fico aqui nessa cadeira que me obriga a cumprir funções, fico pensando na minha mulher. Nosso bebe está pra nascer a qualquer momento, será que eu vou estar sentado aqui? Meu pai estava sentado numa dessas quando não pode ir à minha final do judô. Agora entendo ele.

Meu telefone toca, é minha mãe avisando que minha mulher está em trabalho de parto, desisto de ficar sentado, quero estar junto, largo tudo e vou. A cadeira que me leva à maternidade é aquela que me obriga a passar por um congestionamento. No hospital, meus pais e sogros me recebem e junto deles uma fileira de cadeiras em baixo de uma foto de uma enfermeira pedindo silêncio. Meu Deus será que vou ter que ficar de castigo outra vez?

Tantas cadeiras e eu nem consigo sentar. O tempo passa e sou convidado a conhecer meu filho. Nem sei dizer o que estou sentindo. Vou até o quarto, e lá encontro a minha namoradinha do colégio. Que vontade de passar um bilhetinho pra cadeira da frente! Ela está segurando uma menina linda que dorme. O momento mais sublime é esse que está na minha frente. A melhor cadeira do mundo segura minha filha. Tenho saudade dessa cadeira. Atrás de mim está minha mãe. Menor que eu e sem aquela força nos joelhos pra me por no colo. Que pena! Não importa, agora eu também quero ser cadeira. E quero dar à minha filha as melhores cadeiras de sua vida. E quando a missão estiver cumprida, espero vê-la numa cadeira maior do que aquela que sento em meu serviço.

Se você se interessou pelo assunto, leia mais sobre Design no blog Quintal Deisgn.

Anúncios

4 comentários sobre “Minha primeira cadeira

  1. Muito legal mesmo, Rodrigo!
    Fique à vontade para escrever aqui, poderíamos ter mais coisas sobre design mesmo!
    Obrigada pela participação no nosso humilde blog! hehehehe!

  2. Haha!
    Muito legal!

    Nossa, aquela parte das cadeiras da escola é bastante interessante. Tipo, é meio que por isso que a maioria das crianças não gostam de ir pra escola. Antes de tudo, é desconfortável. hahaha

    Abs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s