O impacto da Internet e das ‘novas tecnologias’

Este post é um complemento de “Comunicação: Ciência ou Teoria da Conspiração?” e é uma adaptação de uma avaliação da disciplina Comunicação e Tecnologia, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná.

Hal, o computador de "2001: Uma Odisseia no Espaço"

Desde a difusão do computador pessoal e a popularização da Internet, as pessoas costumam conferir ao novo meio, a cibercultura em geral, poderes capazes de uma transformação social inigualável na História, virou senso comum dizer que a Internet está revolucionando o mundo, que possui um grande impacto na sociedade. Mas raramente nos perguntamos que tipo de revolução e que tipo de impacto são esses. 

Este tipo de afirmação é, portanto, precipitada e talvez até ingênua, no sentido em que é feita sem antes estudar e conhecer de fato as tais novas tecnologias. A metáfora que coloca a cibercultura como um “impacto” é inadequada, pois o termo pressupõe algo que é exterior à sociedade e não lembra – ou não considera – que as novas tecnologias são, na verdade, pensadas, concebidas e utilizadas dentro da sociedade, por indivíduos e atores sociais. A relação entre essas, digamos, “entidades” (pessoas, máquinas e ideias) é, na verdade, o que constitui as atividades humanas. O uso que se faz da técnica parte dessa relação, ou nas palavras de Pierre Lévy, “por trás das técnicas agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a gama dos jogos dos homens em sociedade”. A máquina por si só não tem interesses, mas atende a interesses de alguém.

Dessa maneira, não se pode dizer que a técnica determina certos acontecimentos na sociedade, causando o tal impacto. A sociedade pode se encontrar condicionada pela técnica, mas nunca determinada. Isso significa dizer que a tecnologia permite certas mudanças na sociedade, mas não as determina, ideia contrária, por exemplo, de Marshall McLuhan, que concedeu poderes a todos os meios de comunicação com a máxima “o meio é a mensagem”. Um outro autor, Dominique Wolton é muito claro quanto a isso: as “revoluções” que aparentemente foram causadas exclusivamente por causa de uma tecnologia – por exemplo, a imprensa de Gutemberg e a Reforma Protestante – foram, na verdade, a conseqüência de um momento catalisador da História, quando houve a articulação de três aspectos fundamentais da comunicação: o técnico, o cultural e o social. Em concordância com esta ideia, Lévy aponta que essas três entidades – tecnologia, sociedade e cultura – não podem ser analisadas separadamente, pois estão confundidas na cibercultura. Quanto à ideia de impacto e revolução, o autor acrescenta que nenhuma das novas tecnologias foi deliberadamente planejada por Estado ou setor privado, foram, na verdade, resultado de pesquisa e paixão de visionários.

É importante lembrar também que a técnica não poderia fazer nada sozinha. O que frequentemente criticamos ou elogiamos é o uso que se faz dela, pois ela não é boa, nem má, essa classificação depende do contexto e, novamente, do uso. Mas a técnica também não é neutra, justamente pelo seu papel condicionante da sociedade.

Essa sensação de impacto e de exterioridade das novas tecnologias tem uma explicação muito simples. Os novos meios estão constantemente se modificando, deixando ultrapassado, por exemplo, um aparelho celular que acabou de chegar às lojas. Como não podemos acompanhar todas essas mudanças, parece-nos, cada vez mais, que essas atividades são exteriores à sociedade, como se viessem do Espaço causando o impacto de um meteorito.

Bem, não se pode negar que as últimas transformações tecnológicas no campo da cibercultura mudaram, em alguns casos profundamente, a rotina as pessoas, embora nada disso pudesse ser previsto ou planejado. Alguns campos apropriaram-se do conhecimento que estava sendo desenvolvido no campo da Informática e transformaram seu modo de produção, como nos casos das telecomunicações, cinema e televisão, por exemplo.

O que vemos hoje é uma crescente popularização de uma tecnologia que antes era exclusivamente da Informática e que atendia a interesses bélicos e estatais. Ainda, a tecnologia não está somente na vida profissional dos indivíduos, a cibercultura está em todos os lugares, inclusive na vida pessoal. Essa onipresença causa não apenas a comodidade para as pessoas, mas também uma grande mudança naquilo que fazíamos com o nosso tempo, porque, na medida em que as novas tecnologias ganham tempo, nós arranjamos mais coisas para fazer, e temos a impressão de que estamos ganhando tempo (Síndrome do Coelho Branco).

Acredito, no entanto, que o impacto causado pela cibercultura não é tão grande quanto pensamos ser. Certamente, as alterações provocadas na rotina dos indivíduos, nas relações do dia-a-dia são muito grandes e ainda não cessaram. Como aponta Lévy, a cibercultura está em constante mudança, que se dá cada vez mais rapidamente, ideia também defendida por Wolton, quando este diz que as novas tecnologias se desenvolvem num tempo muito mais curto do que o tempo em que a sociedade leva para se adaptar e entender os processos. Essa diferença de tempo tem um papel importante no impacto da cibercultura, pois a sociedade é seduzida por tecnologias desconhecidas, uma mágica capaz de aproximar duas pessoas que se encontram geograficamente distantes. São os programas, aqueles seres estranhos que nos permitem fazer parte do mundo virtual. E justamente essa sedução, causada então por uma diferença de tempo entre sociedade e tecnologia, é o que confere à cibercultura a metáfora do impacto. É o novo bezerro de ouro.

Surge então, o conceito de realidade virtual, causada pela interação entre a máquina e o indivíduo. Nas palavras de Lévy, “o explorador tem a sensação física de estar imerso na situação definida por um banco de dados”, ou seja, a realidade experimentada na cibercultura é material, é palpável. Essa ideia nos leva ao conceito de virtualidade real defendido por Manuel Castells: vivemos hoje uma mistura de duas realidades, a real e a virtual; assim, a vida offline é cada vez mais influenciada pela vida online, que passa a configurar então parte integrante da realidade; é virtual porque se dá por meios eletrônicos, mas é real na medida em que é parte integrante e fundamental de nossa realidade, essa realidade palpável.

Sabemos que não é possível viver sem os avanços tecnológicos que modificaram não somente a Comunicação, mas, principalmente, as relações entre os indivíduos e a sociedade, que fizeram dos meios extensões dos homens, pois as novas tecnologias não são simples ferramentas de trabalho. Os usuários assumem o controle da máquina, a mente humana é uma força direta de produção (Castells). Assim, como já afirmado por McLuhan, computadores são extensões da mente humana e, portanto, quem estaria causando um possível impacto não é a cibercultura, mas os próprios indivíduos da sociedade.

Essa é uma constatação que devemos sempre ter em mente. Quando criticamos a “mídia”, a “tecnologia”, ou a “cibercultura”, parece até que estamos falando de um monstro invisível, e sempre externo, que corrompe a sociedade e o dia-a-dia das pessoas. Não, a mídia, a tecnologia e a cibercultura foram todas concebidas por indivíduos, por atores sociais; e são constantemente alimentadas pelas próprias pessoas da sociedade. Bom ou mau é o uso que se faz delas.

Referências:
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede.
LÉVY, Pierre – Cibercultura, São Paulo. Editora 34.
WOLTON, Dominique. Pensar a comunicação.
WOLTON, Dominique. Internet, e depois? Uma teoria crítica das novas mídias.

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2 comentários sobre “O impacto da Internet e das ‘novas tecnologias’

  1. Lu, absurdamente bom este post, show!
    Ele me lembrou duas coisas:

    1. “o explorador tem a sensação física de estar imerso na situação definida por um banco de dados”, isso é tao real que existe hoje um aplicativo parecido com o Secondlife, onde o objetivo é conhecer outros avatares e ter relacoes (sim, sexo) com estes seres virtuais (que possuem seu lado real também, afinal existe alguém na frente de um computador controlando seus atos) . Redlight Center, para os que já se interessaram sobre o assunto.

    2. Alguém novo no trabalho aqui dizendo que nao queria um Blackberry da empresa porque depois disso nao poderia nem ir em paz para o banheiro. Real.

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