Copa do Mundo e jornalismo esportivo: jornalismo?

Passada a decepção inicial após a eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo da África do Sul, parece que paira entre os torcedores do país do futebol um sentimento de “eu já sabia”. Todos sabiam que Felipe Melo seria expulso, um dia. Todos sabiam que Kaká não aguentaria todos os jogos. Todos sabiam que se o time que Dunga montou – que ao contrário do que pensam muitos, não era ruim – não funcionasse em algum momento, tudo estaria perdido, pois não haveria opções. E como todos sabiam disso, não é isso que vou falar.

A proposta, a um jornalista, de escrever para um blog essencialmente sobre publicidade parece bastante interessante, não parece? Também acho. Dessa forma, vou dar meu pitaco sobre jornalismo aqui, no Biscoitos.

Já foi comentada aqui a “briga” entre Dunga e a imprensa durante a Copa. Antes de tudo, deixo claro algumas coisas. Sim, o Dunga foi mal educado e exagerou nas respostas. Sim, ele errou (durante toda sua estada como treinador da seleção) ao generalizar e colocar toda a imprensa brasileira e mundial no mesmo saco de lixo que colocou as Organizações Globo.

De qualquer forma, Dunga levou, com a sua má educação e tudo mais, a um questionamento de vários críticos ao jornalismo esportivo brasileiro. Compartilhando do brilhante ponto de vista do jornalista Leandro Fortes, o jornalismo esportivo no Brasil já não é mais jornalismo. Segundo Fortes, deixou de ser quando Fernando Vannuchi (aquele que em 2006 apresentou seu programa na RedeTV! completamente bêbado após a eliminação da seleção brasileira) iniciou seu trabalho na Rede Globo em 1986. Seu lema “Alô você!” se tornou a legenda do jornalismo esportivo – especialmente o televisionado – no Brasil. Desde então, tudo que envolve esportes para a emissora e aquelas que a seguiram é sinônimo de entretenimento. Os programas e reportagens esportivas passaram a uma linguagem de talk show tosco, com um bom humor extremamente forçado e com uma vontade enorme de ser engraçadinhos. Por curiosidade, a Central Globo de Jornalismo é uma coisa, e a Central Globo de Esportes é outra.

Especialmente desde 2002, quando a cúpula da Globo finalmente conseguiu convencer o Ricardo Teixeira a permitir a entrada de um jornalista no ônibus da seleção, a cobertura da emissora sobre a Copa se transformou num show. Como diz Fortes, num reality show. A escolhida foi Fátima Bernardes, e nós lembramos o resultado.

O programa mais chato da Tv Globo inverte um papel que os jornalistas de alma pura diziam fundamental. O jornalista não pode virar notícia. E virou.

Dunga, então, com seus carrancudos um metro e setenta e qualquer coisa, chegou na África do Sul e disse: “Sem essa palhaçada de exclusiva. Ou falo para a imprensa, ou não falo. Nem eu nem nenhum dos jogadores que trouxe, se não isso aqui vira a zona que aconteceu em 2006”. Renato Maurício Prado e todos os outros 250 profissionais das Organizações Globo enviados para a cobertura da Copa 2010, naturalmente, ficaram chateados, talvez pela primeira vez na história. Com seu estilo grosseiro, Dunga fez cair por terra o espetáculo forçado produzido em torno do esporte pela Globo e afiliadas. Elas teriam, de uma vez por todas, que praticar, simplesmente, jornalismo. Falharam.

*Manipulação é a palavra errada. O título do vídeo deveria ser: Editorial das Organizações Globo sobre o episódio com Dunga.

O que eu quero apontar é que Dunga, mesmo com toda as suas falhas, talvez tenha aberto um caminho na crônica televisiva que envolve o esporte. Porque este, principalmente o futebol, não é brincadeira no país. O futebol, aqui, representa muito mais do que qualquer jornalista da Globo pode resumir num sorriso forçado, num estúdio colorido. Vale ressaltar que há talentos no jornalismo esportivo da TV. Porém, muito menos do que gostaria.

Leia mais sobre a relação entre Mídia e Copa do Mundo:

Brasília, Eu Vi – A nova Era Dunga: o fim do besteirol esportivo

Observatório da Imprensa – Alberto Dines – O rancor da imprensa

Observatório da Imprensa – Luciano Martins Costa – Paraguai, grosseria e preconceito

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Este post foi uma contribuição de: Guilherme Sobota.

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10 comentários sobre “Copa do Mundo e jornalismo esportivo: jornalismo?

  1. Aiiii, que legaaaaaaal, Gui! Vou fazer um comentário e vc me diz se ele é certo. ahahahahaha =)

    Acho que é por isso que o Tiago Leifert tá ganhando tanto espaço. Ele não se resume a um sorriso falso em um estúdio colorido. ahaha A Lê até já comentou comigo, e eu tive a mesma impressão que ela, que o Galvão se perde quando o Tiago começa a fazer as coisas meio que no improviso. Talvez pq eles tenham essa obrigação de fazer um espetáculo, achem difícil/impossível sair do script.
    Tomara que essa seja uma boa herança da Era Dunga, e que a gente possa ver mesmo um jornalismo esportivo bem feito, do jeito que tem que ser. Eu confesso que essa não é muito a minha praia, e eu realmente não sei o que seria o certo/legal/jornalístico em relação a uma cobertura esportiva. O que eu sei é que alguma coisa não soa certa qndo eu vejo os sorrisos forçados e o humor mais forçado ainda. Então, considerando toda a minha “leiguice” em relação ao jornalismo, a minha opinião de telespectadora é que o Tiago é uma boa referência. Ele é, Gui?

    1. Então, se o Tiago é ou não referência, não sei. haha

      Mas sem dúvida alguma ele faz o jornalismo engraçadinho da Globo melhor que os outros, justamente por não ter aquele sentimento de obrigatoriedade humorística que tem os outros repórteres com seus sorrisos falsos de orelha a orelha.

      Ele é, portanto, bem humorado. Diferente da coisa forçada que falo no post hehe.

  2. A cobertura da Globo durante a Copa foi uma vergonha. Além de tudo já muito bem mencionado no post, houve ainda o episódio sobre a matéria que a Globo fez falando do Paraguai, repleto de ofensas aos nossos vizinhos. Tanto que eles mesmos protestaram contra a forma como a emissora retratou o Paraguai.

    E quando eles foram desafiados a fazer jornalismo com as notícias que lhes cabiam, não foram capazes. Houve episódio de um jornalista deles, não me lembro quem, falar que “é até chato falar isso, mas não foi permitida a entrada da imprensa”. Ué, então vai pra rua fazer matéria, vai cobrir as notícias. A Globo confunde jornalismo esportivo com stand-up mesmo.

    Mas eu gosto do Central da Copa com o Tiago Leifert 😛

  3. Ainda não assisti aos vídeos, mas vou comentar mesmo assim! uhauahauhauaha

    Gabi, não fui eu não que comentei com vc que o Galvão se perde qd o Tiago improvisa? uahauhauha eu acho que foi… :PP hahahaha

    Bom, eu tb a-doro o Tiago Leifert. Ele é espontâneo e engraçado. Ele não dá só a notícia, ele comenta e fica muito mais legal. Talvez vc ache que isso corrompa o jornalismo esportivo ideal… mas se a gente pensar melhor, pode ser que o formato do jornalismo esteja mudando mesmo. A propaganda está mudando, a gente sabe disso. Parece que as coisas estão se virando pra um formato mais de entretenimento… eu concordo que o jornalismo não deve se render a isso, mas não adianta insistir num formato conservador enquanto a sociedade e as tecnologias se modernizam, a linguagem vai mudando né.

    Eeeeeeeeee eu tenho uma opinião da qual vc provavelmente não concorda uhauahuahauaha eu aaacho uma bobagem dizer que o jornalismo deve ser imparcial. pq nunca foi… não sei da onde tiraram essa ideia! uahauhauahau e hoje, mais ainda, ngm precisa de jornal pra saber de um fato… eu acho que as pessoas lêem jornais pra formar opiniões, quase tudo o que tá no jornal a gente já ficou sabendo, provavelmente pela Internet.

    saiu uma notícia no NYT sobre as restrições aos jornalistas na copa do mundo. e daí eles falam especialmente do brasil, que a gente tá acostumado com um reality show de cobertura mesmo, como vc disse. vou ver se acho o link.

    adorei o post, muito legal! parabéns!
    e obrigada por postar!

    1. Lu, entendo e não discordo do que vc falou. Porém, mudar o formato do jornalismo é algo que acontece sim, mas não creio que isso que a Globo faz, desde que eu me conheço por gente, com os esportes e especialmente o futebol seja uma mudança na linguagem jornalística. É, simplesmente, a criação de uma linguagem que pretende ser jornalística em alguns momentos. Acho que a maior prova disso é a criação de duas instituições, uma para o Jornalismo outra para Esportes.

      Não acho que inovações não sejam necessárias. Mais do que isso, são inevitáveis. Mas eu, pessoalmente, e uma parcela da mídia como apontado ali, não acho que essa abordagem das Organizações Globo como um todo seja a mais adequada.

      (:

      1. ahuahauaha acabei de ver os vídeos! acho que o vc disse sobre o jornalista virar notícia é uma forma de explorar ao máximo o tema da reportagem, esgotar mesmo tudo, inclusive mostrar os “bastidores” de uma matéria, que foi mais ou menos o caso do Mais Você. é foda, quase todos os programas da globo tem um quê de Video Show, promovem a emissora e mostram bastidores hahahaha eu até acho interessante, desde que as notícias sérias estejam na pauta tb ahuahuahau

        e o segundo video…hahahahaha ri demais! manipulação é o que o ser que editou o video fez! uahuahau acho que vou mudar o ditado e dizer “de médico, louco e ‘comunicador’ todo mundo tem um pouco” hahahahahaha

  4. ñ conheço esse tiago e pelas poucas vezes que vi nos intervalos dos jogos ele me pareceu muito “alegre” e eu leio o nome dele como “lafayette”

  5. Isso me lembra um jornal (não lembro qual, acho que é um do SBT, da noite) que atendia ligações ao vivo do telespectador… quando vi isso achei q tava virando putaria, perdendo a seriedade…tpo, parece desespero por audiência! E o que mais se vê é programa de entretenimento divulgando notícias sérias ou exibindo reportagens sérias… exemplo: o delegado do caso Bruno dando entrevista ao Hoje em Dia (da Record), minutos depois o Edu Guedes levanta e vai fazer uma receita sei lá do q… O Mais Você também faz isso, mas de um modo menos amador, com menos desespero… Esses programas de variedades ficam com um baita sensacionalismo em cima de notícias sérias… até a Sônia Abrão “faz” investigação de crime, gente! aff convenhamos né. Não gosto disso. Diferente do Jornal Hoje, por exemplo, que no finalzinho dá uma pitada de descontração com matérias sobre moda, beleza, família ou culinária… é sutil, é pouco comparado ao tempo de duração do programa… muito melhor…

    Não estou defendendo nenhuma emissora tá… até pq são todas farinha do mesmo saco praticamente… só citei exemplos q me vieram à mente… E isso só é possível graças às férias, senão nem tempo de ver TV eu tenho hehe

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