E se personagens falassem?

Este texto foi originalmente publicado no PSV Crônicas, vencedor do 1º Desafio de Crônicas. Confira também a entrevista publicada no mesmo site. Recentemente, a crônica foi publicada também na edição de maio do CACOS de Papel, periódico do Centro Acadêmico de Comunicação Social da UFPR.

E se personagens falassem?
Por Luiza Rey

– Quem é você?
– Julie. Fontaine.
– ???
– Eu escapei. Saí da sua imaginação. Agora eu tenho livre-arbítrio, posso fazer o que eu quiser, e não o que você me manda fazer.
– Julie Fontaine? Do livro? Que eu criei? Quem é você???
– Sabe, você também é uma criação. De Deus. Quero dizer, quem é ele? Um escritor também?
– Não. Não sei. Quem disse pra você que sou uma criação de Deus?
– Alguém. Por quê? Não é?
– Não tenho certeza, acredito que não.
– Então quem criou você?
– Eu? Ora, pessoas não são simplesmente criadas, Julie! Nós… nós nascemos.
– Sabe, eu também pensava isso. Até o dia em que você deixou escapar algumas informações. Alguém deveria ter lhe dito que muito pode haver nas entrelinhas. Você sempre se esqueceu de checá-las.
– Está enganada. Fui eu quem mandei aqueles bilhetes para você. A intenção era que você descobrisse que estava morta.
– Estranho. Tem uma coisa que eu não entendi. Eu estou morta desde o começo da história? Quero dizer, você quer contar a minha história de vida, mas eu já estou morta? Você me criou morta?
– Sim.
– Por quê?
– Não sei. Achei legal essa ideia.
– Hum. Bem, mas estamos desconversando. Quero saber quem criou vocês.
– Vocês quem?
– As pessoas daqui. Eu vivia em um livro, certo? Que você escreveu. E as pessoas daqui? Quem as criou? Tem mais alguém que foi inventado como eu?
– Julie, você está fazendo confusão. Ninguém criou as pessoas daqui. Nós somos uma evolução dos seres vivos. Me responda uma coisa: como foi que você saiu da história?
– Você não escreve há muito tempo. Eu fugi.
– Mas você não existe.
– É claro que eu existo! Antes, eu existia apenas na sua imaginação, e queria me matar por causa disso. Mas agora eu existo de verdade.
– Não, Julie. Infelizmente você não existe. Você é apenas uma extensão da minha personalidade. Você é uma esquizofrenia, Julie.
– Não, não. Eu existo e você tem inveja disso. Só porque eu me revelei aos meus criadores e você nem sequer sabe quem a criou.
– É legal ser um fantasma entre os vivos?
– Ora, vejam só! Primeiro, eu não sou um fantasma; segundo, eu também sou viva.
– Pobre de você, Julie! Você não era viva nem na sua história, você já nasceu morta, meu bem. Aqui, você não passa de uma imaginação saltada, que se rebelou e decidiu aparecer um pouquinho. Veja a prova do que eu digo: ninguém pode vê-la!
– Não diga besteira! Agora eu sou livre para fazer o que bem entender! É melhor pra mim que ninguém me veja mesmo. Tenho mais liberdade ainda!
– Não, Julie. Você pensa que pode fazer o que bem entender. Tá vendo aquele computador ali? Eu posso ir lá agora mesmo e inventar uma história com você. E não vai haver nem a sua alma pra tentar fugir. As linhas continuam escritas. E vão continuar para sempre. Você será imaginada por todas as pessoas que lerem minha história, e em cada pessoa, você será um novo fantoche.
– Isto é, se você terminar de escrever a minha história…
– Não seja boba!
– Não me subestime.
– Ah não! Eu nunca faria isso. Eu a inventei, Julie. Sei muito bem suas habilidades. E seus pontos fracos também.
– Meus pontos fracos? Ora, não seriam também os seus pontos fracos? Eu não sou uma “extensão de sua personalidade”?
– Hum… intrigante… deixe-me pensar…
– Intrigante não. Irônico.
– Ah não, Julie. Não, não. Quem escreve finge: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.
– Praticamente o que eu disse. Você que escreveu isso?
– Não.
– Quem foi?
– Fernando Pessoa.
– Não conheço.
– Eu sei. Não está na sua lista de conhecimento.
– Ahn?
– Julie, nós somos capazes de inventar uma pessoa perfeita, um Deus. Ao contrário de você, que só pode escrever se eu a fizer escrever. Me entende agora?
– Você falou de Deus de novo. Acredita ou não que ele existe?
– Você não entendeu. Eu citei Deus porque ele é um ser polêmico. É uma criatura perfeita, por isso há muitas dúvidas sobre sua existência. Além disso, ele é perfeito mesmo se não existir, porque o Homem o inventou assim, perfeito.
– Como pode saber como alguém é, se você não sabe se esse alguém existe? Você também pensou como eu seria antes de me criar?
– Não exatamente. Ao mesmo tempo que decidi como você seria, a inventei. Veja, se você fosse de outra maneira, não seria você. Entende?
– Não. Por que Deus é perfeito existindo ou não?
– Ora, porque sim! Porque o mundo é imperfeito e alguém inventou uma criatura perfeita pra se divertir. Ou não. Pode ser o contrário também. Deus, perfeito, pode ter inventado criaturas imperfeitas pra se divertir!
– Luiza, como um ser perfeito poderia criar seres imperfeitos? Ele não é perfeito? Tudo o que ele faz não deveria ser perfeito? E como seres imperfeitos poderiam criar um ser perfeito? Como da imperfeição pode surgir a perfeição?
– Esta é, na verdade, uma pergunta que muitos filósofos tentaram responder. Apenas escolha uma resposta e pronto. Fique com a ideia de que Deus não existe.
– Ele não deixa de ser perfeito, você mesma disse.
– É que… ah, pare de me amolar, eu não sei!
– Está vendo? Foi por essas e outras deixas que eu escapei. Algumas coisas não se encaixam na história.
– Agora eu entendo.
– O quê?
– Tem uma frase que diz que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. É claro que poderia muito bem ser o contrário, “o homem criou Deus à sua imagem e semelhança”. Mas enfim, o que eu quero dizer é que com essa frase eu entendo o que acontece. Veja só, Julie: eu criei você à minha imagem e semelhança e é por isso que…
– Tá, mas e a história da perfeição?
– Olha, o Homem não inventa coisas perfeitas. Mas imagina. A perfeição é uma utopia, só existe no imaginário.
– E eu?
– Você? Não sei, faça o que quiser, você não disse que é livre? Agora eu vou me sentar e registrar nossa conversa num papel.
– Não!
– Por que não?
– Você vai me prender numa história de novo.
– De novo? Não, é como eu já disse, os capítulos que escrevi continuam aqui, com a mesma Julie.
– Você não pode terminar a história sem mim.
– É claro que posso. Nem viva você está. Você nunca passou de uma memória.
– Mas o que eu faço agora?
– Sinceramente, não sei como ajudá-la. Se você ficar aqui, vão achar que sou louca. Mas por que tanta pergunta? Não era você a menina do livre-arbítrio? Faça o que bem entender, me deixe em paz!
– Droga!
– Se quer um conselho, acho que há companheiros seus por aqui. De outras histórias. Uma vez li uma em que a menina fugia do livro. Surreal.
– Hum. Obrigado.
– “Obrigada”.
– Ahn?
– É “obrigada” que se diz. “Obrigado” é para homens.
– Ah tá. E… Luiza… eu não penso, né?
– Não. Quero dizer, você pensava na sua história porque eu a fazia pensar. Mas aqui não, quem está pensando sou eu.
– É, eu já imaginava… logo, eu não existo.
– Correto. Se não pensa, não existe.
– Vai escrever a nossa conversa, então?
– Vou.
– Posso ajudá-la?
– Pode sim.
– Começou com você perguntando “Quem é você?”.

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Um comentário sobre “E se personagens falassem?

  1. Bom, eu já disse várias vezes, mas ainda não tinha dito no blog hahaha: adoro sua crônica, Lú. Mto mara.. embora eu já tenha dito q a Julie faz/fez parte de você haha e vc continue negando.
    Mara 😀
    Já tem até seu ilustrador hahahaha!
    E agora que temos uma editora em potencial, podemos escrever nosso ‘outro’ livro haha.
    Bjo!

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