Era uma vez um jornalista e seu diploma

“O Brasil é um país de Doutores”. Todo mundo quer ir para a Universidade, ter um diploma. Curso técnico? Nem pensar!

Acredito que com isso, a Universidade perca um pouco de seu papel original, o papel de pesquisadora. Principalmente na área de Humanas, as pessoas só pensam em graduar, ganhar o canudo e ir para o mercado de trabalho. Nada de errado nisso! O erro está provavelmente na estrutura, no princípio que gerou esse tipo de costume. O fato é que o verdadeiro papel da Universidade não é o de gerar profissionais para o mercado de trabalho. Não deveria ser, pelo menos. A verdadeira função da Universidade é de gerar CONHECIMENTO.

Mas no Brasil é diferente. As universidades costumam gerar pouco conhecimento (pelo menos com relação ao que deveria ser) e muitos profissionais. Posso dizer pela minha área que zero por cento dos estudantes de Publicidade pensam em fazer pós-graduações ou seguir carreira acadêmica. Nós queremos é trabalhar em agências, o mais rápido possível. E não, não somos obrigados a ter um diploma de Publicidade para exercer a profissão. Qualquer pessoa competente pode atuar na área. Mesmo assim, as concorrências para os vestibulares de cursos de Publicidade só têm aumentado, ficando entre os mais concorridos dos últimos anos na maioria das universidades brasileiras.

Por quê? Porque todo mundo quer ter um diploma. Tem muita gente no mercado, então vamos estudar em uma universidade pra ver se conseguimos algum destaque. Porque ter uma graduação em Publicidade deve fazer alguma diferença. Mesmo que o seu chefe não a tenha.

Acredito que isso acontece no Jornalismo há mais tempo do que imagina-se. Assis Chateaubriand, o “rei do Brasil” – como colocou Fernando Morais -, o “magnata das comunicações” no Brasil, “o Cidadão Kane brasileiro”, dono de mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e até agência telegráfica; “fundador” da TV no Brasil, fazendo do país o 4º a possuir televisão no mundo, e proprietário da primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi. Assis Chateaubriand, ou Chatô, tinha um diploma. Em Direito.

Críticas à parte, ele foi um dos nomes mais importantes do Jornalismo brasileiro. Até porque naquela época, não havia exigência de diploma para exercer a profissão. Os jornalistas eram políticos, poetas, escritores… advogados. E vale lembrar que a obrigatoriedade do diploma de jornalismo nunca foi uma conquista dos profissionais ou estudantes. Foi uma conquista da Ditadura.

Em 1967, foi editada a Lei da Imprensa (Lei 5.250/1967); logo após, em 1969, a ditadura militar baixou o Decreto-Lei 972/1969, que tornava obrigatório o diploma de jornalismo a qualquer um que desejasse seguir a carreira. Ora, ditadura, decreto-lei, proibição: um meio de controlar a imprensa.

Na época, os jornalistas eram todos contra a exigência do diploma. É claro, pois tratava-se de mais um instrumento de repressão do regime militar, que controlava os profissionais de jornalismo.

Em 1988, o Brasil ganhou uma nova Constituição, acabando com os Atos Institucionais e outras aberrações da Ditadura. Garantiu a liberdade de imprensa, mas não mexeu no decreto-lei de 1969. Mas então, como ficou a liberdade de imprensa?

Ficou assim, até pouco tempo. Este ano, o Supremo Tribunal Federal decidiu que é inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e o registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista. E não é? Pelo menos tecnicamente. Se essa exigência contradiz a Constituição que prevê a liberdade de imprensa, ela é inconstitucional. Sem contar que se trata de um “resquício da Ditadura”.

Além disso, devemos notar que não é o diploma que foi colocado em questão, mas a exigência do diploma. Ele continua existindo, todos os estudantes de jornalismo vão receber o seu, assim como os estudantes de publicidade recebem, sem nunca ter sido obrigatório. Acredito até que isso vá valorizar quem tem o diploma. Afinal, entre duas pessoas competentes, em quem você aposta? Naquele com diploma ou naquele sem diploma?

Acredito ainda, que isso pode ser um início de uma grande mudança no Brasil. É utópico, mas quem sabe? Afinal, é assim nos países desenvolvidos: Universidade é pesquisa, geração de conhecimento. Mercado é outra coisa. E profissão é VOCAÇÃO.

Disseram por aí que se essa situação do diploma estivesse acontecendo com publicitários, estaríamos causando o mesmo bafafá. Provavelmente. Infelizmente.

Mas talvez devêssemos discutir aqui uma questão que está por trás de toda essa polêmica e parece ser muito mais importante: por que diabos o Supremo está legislando, e não o Congresso?

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3 comentários sobre “Era uma vez um jornalista e seu diploma

  1. Eu não tenho uma opinião definitiva sobre isso.. compreendo a sensação que os estudantes de jornalismo que já estão na universidade sentem, mas na boa, as coisas não vão necessariamente mudar… Acho que no início vai ser meio confuso, mas daqui um tempo, quem tem diploma será privilegiado porque estará melhor preparado. Então, “choremos as pitangas” agora.. é normal. Daqui uns anos (se muito) ninguém mais vai se lembrar da obrigatoriedade ou não do diploma e as coisas continuarão a ser.

  2. auhauhauhaauhauahuahauahauha
    agora não precisa de diploma né! “até” publicitário pode virar jornalista! uUAHuahUAHuaha

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